Filho de peixe

Artigo publicado em: 30/11/2008

No ano de 1957 os políticos estavam em campanha eleitoral em Curitiba.  As ruas recebiam dezenas de candidatos distribuindo folhetos e usando todos os meios disponíveis para conquistar o eleitor.

Em frente à Biblioteca Pública do Paraná, um garoto de uns 11 nos de idade, magro, cabeludo, com um megafone na mão  fazia propaganda de um candidato a vereador.

– “Para vereador votem em Antônio Menezes, O Catarina”.

No outro lado da rua passava um dos maiores radialistas do Paraná: Jacinto Cunha,  locutor pioneiro e diretor da Rádio Clube Paranaense. Reconheceu imediatamente o menino com megafone. Ficou emocionado. Era Mário Celso Cunha, seu filho. O filho do grande radialista se apaixonou pelo rádio, acompanhando o pai no trabalho e observando o respeito e admiração que todos tinham por ele.

Quatro anos mais tarde começou a trabalhar como repórter esportivo na Rádio Marumby. Era época da Jovem Guarda, e foi escalado para animador de programa de estúdio.  Lançou o programa “Cabeludos Pela Marumby”. Passou por vários prefixos em Curitiba, sempre colhendo sucesso e fazendo amigos entre seus colegas e ouvintes. Coragem e ousadia marcaram as grandes iniciativas em sua vida de radialista.

Durante um período em que dirigiu a Rádio Cruzeiro do Sul, manteve um programa onde comentava notícias de jornais e revistas. Certo dia leu uma noticia publicada numa revista de circulação nacional sobre problemas com a Polícia Federal em Foz  do Iguaçu. O país vivia sob o regime militar e o presidente era o general Ernesto Geisel. Nesse tempo ler notícia em rádio representava um grande risco de ser enquadrado nos dispositivos do Serviço de Censura Federal, criado para controlar os meios de comunicação.

Sem medo, Mário leu e comentou a noticia. Irritou as autoridades. Antes que o programa terminasse , recebeu a visita de dois agentes federais que lhe deram voz de prisão. Levado para a sede da Policia Federal, ás 10 horas da manhã só retornou no final da tarde, depois de dar muitas explicações e receber um “pito”, como punição.

Algum tempo depois, foi contratado para apresentar um programa, tarde da noite, na Rádio Independência. Com objetivo de testar a audiência do horário, anunciou a chegada de um OVNI no bairro Mercês. Para dar uma aparência de credibilidade a sua história mandou um repórter fazer a cobertura no local. O sonoplasta se esmerava nos efeitos sonoros, enquanto Mario contava detalhes do evento e o repórter fazia amplos relatos sobre o movimento de luzes que estariam vindo do céu.

A emissora nessa noite recebeu mais de mil telefonemas. Muitos ouvintes, chegaram a afirmar ter visto as luzes do OVNI. Pesquisadores pediam informações para checar as características dos visitantes. A brincadeira rendeu bons índices de audiência e matéria em alguns jornais. Na semana seguinte, Mário Celso entrou em férias. Na função de repórter esportivo, certa vez foi escalado para trabalhar com o narrador Fuad Kalil no jogo Fluminense X Clube Atlético Paranaense. No segundo tempo da partida o juiz  Dulcídio Wanderley Buschiglia, expulsou  o jogador carioca, Carlos Alberto Pintinho, numa situação bastante confusa.
Fuad Kalil chamou seu repórter para maiores informações.

– Fala, Mario Celso, o que aconteceu no gramado?
– Olha, Fuad, o juiz acaba de colocar o Pintinho pra fora.

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