Fizeram-me colunista

Publicado em: 06/11/2012

Fui convidado por Rodolfo Amarantes a parar uma vez por semana a fim de escrever uma coisa diferente que será publicada em seu jornal que eu sequer conhecia. Gostei do convite e aceitei para não fazer desfeita e para ver se a minha cara estampada em fotografia de jornal ficaria apresentável. Isso pesou mais forte na decisão do que o meu gosto pela escrita. Também tive que considerar minha ineficiência para trabalhar como cão e enriquecer a elite. Não gosto da rotina. Não gosto de vender meu talento. Cheguei a concluir outra coisa, mas essa pesou pouco na balança. É que o leitor vai se cansar de me ver falando com tanta frequência. Terei que me esforçar para surpreendê-lo com novidades. Ora essa, como se todos os dias caíssem as torres gêmeas, como se existissem 4.354.376.321 guerras mundiais e como se gente como o Chico Anysio morresse a cada nascimento de um guri chorão.

As coisas não funcionam assim. Vai ter dia que vou tampar buraco com um texto desatualizado em que pese às normas ortográficas, sim, porque no Brasil parece que o plano de governo de todo presidente é uma reforma ortográfica. Gentinha sem senso de oportunidade! Ah se me fizessem presidente. Mas só fizeram-me colunista.

Deixa pra lá. Quem sou eu para contestar chefes de estado, de família, de jornal? Eu sou o mais novo soldadinho com salário mensal e benefícios trabalhistas que me segurarão por tempo indeterminado nessa engrenagem maravilhosa que é a produção de um jornal diário. Mais uma ovelha de tantos pastores. Todo mundo é um pouco chefe em jornal.

Para minha primeira publicação, acho que o leitor já deve estar bastante esperançoso no que diz respeito a textos que vão desmoralizar sábios ditadores, tísicas prostitutas e beneméritos cidadãos dessa nossa pátria amada Brasil. Estão enganados. Quem sabe amanhã uma doença venérea não me acometa de modo que eu tenha de ficar isolado das pessoas. Já imaginaram a tragédia? Tragédia?!

Um ilustre e pacato cidadão vai me dizer que a televisão poderá me deixar a par dos acontecimentos nesse caso da doença venérea. Ao ouvir essa besteira vou me calar, baixar a cabeça e no instante seguinte correr até minha casa para me sentar na cadeira de balanço pra velho que comprei. Quem sabe mais calmo, começarei a redigir o meu testamento porque de que vale a vida se tenho que ouvir coisas assim.

Você deve estar se sentido ludibriado pelo jornal que há tempo compra e consome. Como pode um lunático assassinar essa sua tradição matinal e ainda ousar falar mal da televisão para quem a família brasileira oferece absurdo apreço. Por que não deram uma coluna a ele no hospício do seu Alcântara que é lugar de gente desconcertada das ideias, você deve estar conjeturando. E a resposta eu lhes entregarei no próximo e último parágrafo.

As respostas estarão aqui, pois elas têm mesmo que completar os últimos trechos que são o recinto das conclusões e a moradia das certezas. É onde se entregam as verdades e prevalecem as mensagens que o leitor precisa para seguir apaziguado o dia-a-dia. Alcântara e Rodolfo devem estar mancomunados. A resposta, leitor, é que no hospício só existem loucos como eu. Aqui fora posso enlouquecer outras almas vivas e até dar uma ajudinha aos donos de sanatório, porque posso levar, para lá, gente normal como você.

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