Fogo de palha?

Publicado em: 23/04/2020

Quem já viu ou colocou fogo na palha percebeu como ele queima rápido e se espalha mais rápido ainda. Dependendo de alguns fatores é claro; palha seca e em grande quantidade, chega a assustar.

Isso levou ao ditado: “Fogo de palha”, justamente aplicado em situações onde parece ser algo grandioso e durável, mas por fim mostra-se não tão grande e de pouca duração. Será que depois da primeira guerra mundial, 1914 – 1918; a segunda guerra mundial, 1939 – 1945 e de outros eventos catastróficos que o leitor tenha em mente, as coisas mudaram para melhor quando o momento ou período difícil passou? Quando quase perdemos alguém na morte passamos a dar mais valor àquela pessoa por muito tempo? Enfim, o quanto realmente aprendemos e nos modificamos para melhor com difíceis acontecimentos? Essa mudança depende de como a nossa mente, nosso “coração”, nossos sentimentos, nossa maneira de encarar a nós, ao próximo e a vida. Depende de nossa sensibilidade. Há uma palavra pouco usada, mas muito interessante: Epifania.

Na arte, segundo o livro – Literatura Brasileira, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, a palavra epifania é assim definida na página 413: “Você já viveu alguma situação em que, ouvindo uma música ou assistindo a um filme ou a uma peça de teatro, tenha se sentido outro? Isto é, tenha se sentido mais leve, mais humano, mais solidário, ou mais consciente? Não é novidade, pois a arte sempre teve uma função epifânica. O russo Chklovski já dizia que a arte provoca no ser humano um – estranhamento – em face da realidade. É como se ele se ‘desautomatizasse’ e passasse a ver as coisas com outros olhos”. Claro que dei essas voltas para chegar em frases que tenho ouvido sobre o momento crítico devido ao coronavírus, ou Covid-19. Frases do tipo: “Tenho certeza de que quando tudo isso passar nos tornaremos pessoas melhores”. “Acredito que essa quarentena, todas as demais dificuldades e preocupações servirão para nos tornar mais humanos, mais próximos, mais solidários, menos mesquinhos, dar mais valor à vida, à família, aos vizinhos etc”. Será? Por favor, não me julgue como pessimista. Sou um otimista/realista. Não me conformo com certas coisas e vou à luta sempre que acredito em algo. Tudo isso me fez lembrar de pessoas que apostam na mega-sena e dizem que se ganharem irão ajudar muitas pessoas. Será?

É possível que a Covid-19 nos ensine muito. E é mais provável que um número limitado de pessoas aprendam e evoluam. Essas pessoas já estão mudando, não apenas se adequando somente ao momento, mas revendo a maneira como encaravam a vida e muitas outras coisas. Pessoas que não irão esquecer o coronavírus semanas ou meses depois que a situação voltar ao que era antes. Há uma clássica diferença entre saber alguma coisa nova e aplicar para a vida. Entre o conhecimento e a prática há uma diferença enorme. Há pessoas que entendem sabedoria como o conhecimento colocado em prática para um bem comum; para melhorar não apenas a sua qualidade de vida, mas também a dos outros; família, vizinhos, amigos, trabalho, espiritualidade etc. Dar para uma família uma cesta básica uma ou duas vezes por ano é bonito, é elogiável, mas e os demais dias do ano? O que mais pode-se fazer? A maioria que doa e se doa pelo próximo o faz com amor e boa vontade. Há também quem dê por desencargo de consciência. Não cabe julgar quem faz e por que faz, antes, pensar nas reais motivações.

Dentro que algum tempo saberemos se – o mundo se tornou um lugar melhor devido a tragédia do coronavírus. Sinceramente, não acredito nessa mudança em massa. Epifania pode ser apenas por um momento ou para sempre. O ponto com certeza não é a gravidade do acontecimento ou da tragédia e sim – onde está ou estão as coisas que são importantes para mim? Há um filme sobre uma história real onde um avião cai na neve. Nem vou citar o comer carne humana, mas a cena onde sem pensar duas vezes os sobreviventes queimam dinheiro para ter uma fogueira e se aquecerem. Se a Covid-19 mudará para melhor alguns de nós será de dentro para fora. Coisas que vêm de fora podem nos atingir. Como reagimos depende do que há dentro de nós, ou do que “plantamos” dentro de nós. No meu caso, no seu caso, o que virá à tona? Um fogo que jamais apagará, pois “aquecerá” a nós e a outros, conhecidos e desconhecidos? Ou será apenas o “fogo de palha”?

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