Foi a Camélia que caiu do galho

Publicado em: 05/01/2005

Francisco José Pereira

Fui fundador da Escola. Mas, justiça seja feita, a idéia e a mobilização de todo o pessoal foi iniciativa de Adroaldo Melo, sargento da Marinha, líder inconteste no morro com aquele seu jeito calado de ser. É o nosso circunspeto presidente da Escola de Samba Amor à Ilha.

Fiquei na secretaria geral, provavelmente por ser professor e conhecido homem de rádio – apresentador do Vesperal de Sábado, buliçoso programa de auditório. Letárgica no resto do ano, a Escola só desperta mesmo em janeiro, com agitadas reuniões diárias da diretoria. Todo ano é assim, o carnaval bagunça meu tempo e meus sentidos. E devo ainda reservar tempo para Odete. Tenho razões de sobra para estimar Adroaldo Melo. Foi graças à sua solidariedade que meu pai sobreviveu. É bom explicar. Meu velho havia adquirido tuberculose, à época uma temida enfermidade com elevado índice de ocorrência em todos os níveis sociais. Gente simples, não dispúnhamos de suficientes recursos para adquirir os caríssimos medicamentos que poderiam conter a galopante e terrível doença. Meus pais haviam investido restinho da exígua economia no meu gosto pelos estudos.

Nessa época, aos 17 anos, eu concluía o curso fundamental que me habilitaria para o ingresso no curso de professor normalista. Adroaldo, um pouco mais velho do que eu – órfão ainda menino – há muito deixara a escola. E devendo sobreviver por ele mesmo, cedo ganhou a estrada, submetendo-se a uma infinidade de pequenos e difusos trabalhos.

Embora não freqüentasse a casa, Adroaldo soubera de nossas dificuldades. Valendo-se de amizades acumuladas em tantos e inconstantes empregos ou sabe lá Deus como, obteve a internação hospitalar de meu pai em área destinada a doenças contagiosas do Hospital Nereu Ramos – o que parecia inacessível às famílias modestas como a nossa. Cinco meses depois de internado, sob rigoroso tratamento, meu pai teve alta hospitalar.

Adroaldo jamais fez referência àquele gesto de solidariedade. Distante e muito discreto manteve-se sempre alheio às nossas manifestações de gratidão.

E agora -merda! – esta situação terrivelmente embaraçosa, devendo negar o pedido que me fez Adroaldo ontem à noite, após o ensaio da Escola. Ele nunca me pedira nada e eu, todo esse tempo, esperando oportunidade para retribuí-lo. Me sentia sujo. Acabrunhado, pedi tempo. Falaria, antes, com Zininho.

Odete, vizinha, desde menina passava mais tempo lá em casa do que em sua própria casa – num quieto convívio com os modos bondosos de minha velha. Após a morte de meu pai, cuja enfermidade reincidira três anos depois da alta hospitalar, Odete praticamente se instalou lá em casa, tanto que, com freqüência, dormia na mesma cama com minha mãe. Tinha então 13 anos e eu a tratava com ternura de irmão.

Mas como o tempo é coisa que a gente não vê, não sei exatamente quando foi que percebi nos olhos de Odete aquela mesma paixão que conhecera em outros olhos, mas em nenhum deles com aquele brilho de tamanho ardor. E surpresa maior foi haver percebido seus seios assim tão harmoniosamente feitos. O que rolou depois foram águas cristalinas: Odete trocou de cama; minha mãe esbanjou sorriso de conforto pela espera que se findara; e seu Zoca e dona Zulma passaram a almoçar todos os domingos lá em casa – chamando-me de filho também.

Difícil viver minha vida sem Odete. Sua única paixão – afora a nossa, naturalmente – é desfilar como porta-estandarte na Amor à Ilha. Ano passado, já no segundo desfile da Escola, Odete recebera o troféu de melhor porta-estandarte, o mais galante dos troféus. Foi um alvoroço no seu coraçãozinho. Tinha o dia para decidir sobre o pedido de Adroaldo.

No início da tarde, iria encontrar-me com Zininho no Bar Bom Dia e, após o expediente da Capitania dos Portos, encontrar-me-ia com Adroaldo na loja do Salum. Dali, percorreríamos o comércio atrás de lantejoulas, adereços, purpurinas e outras milongas mais para as fantasias da Escola. Adroaldo, seguramente, falaria sobre seu pedido.

Nós havíamos namorado duas irmãs gêmeas: eu, a minha e, Zininho, a dele – bem entendido. Moravam no Estreito e eram filhas de um conhecido agiota, apelidado de Banco Chinês devido a seus olhos pequenos e rasgados. As gêmeas, ao contrário do pai, eram donas de redondíssimos e enormes olhos esverdeados.

Não sei como Zininho conheceu a gêmea dele. Quanto à Regina, minha gêmea, conheci na Secretaria de Educação, onde fazíamos um breve estágio. O namoro foi relativamente curto, assim como o de Zininho e Sílvia – a outra gêmea.

Para mim, os nomes Regina e Sílvia eram simples convenções. Não sabia distinguir as duas e era Zininho quem, a cada encontro, indicava:

– Olha lá, aquela à direita é a Regina – ambas vestindo saias e blusas iguais, e nas orelhas, balançando, brincos idênticos.
– Como sabes, cara!
– Pelo cheiro, seu trouxa! Toda mulher tem cheiro próprio, é o que perpetua o prazer. Mas nem todos têm este faro e, por isso, comem insosso – gozando.

Não sei se Zininho misturava as duas e tirava sarro com ambas. Na verdade, de fala macia e riso gentil, era o preferido das duas que, coniventes, aceitariam a troca.

Tudo bem: eu não iria mesmo me entender com sogro agiota.

Fora surpreendente a transformação de Adroaldo Melo depois que conheceu Camélia, filha de dona Gininha. Recolheu-se, deixou de pular de emprego em emprego, reduziu as conversas de bar, largou o jogo inútil, mudou seu jeito, tornando-se cada vez mais calado. E se casou. Essa transformação foi atribuída à Camélia, que ganhou indevida fama de durona.

Na verdade, Adroaldo aprendera rápido com a vida e tratou de colocar-se nela. Não possuía estudos básicos e procurou supri-los, matriculando-se em curso noturno. Sabia o que queria. O resultado veio com o primeiro lugar no curso para sargento da Marinha, que lhe deu prestígio entre os colegas de armas e a admiração do morro.

A fama de durona feneceu muito rápido. Camélia, submissa, jamais era vista nem no quintal ou à janela, encerrada no pequeno bangalô como se este fosse uma inexpugnável torre medieval. Adroaldo a mantinha distante de suas atividades, incluindo aquelas relacionadas com a presidência da Escola de Samba. A exceção era quando, no carnaval, Camélia desfilava como destaque da Escola – sua fantasia, então, era puro luxo.

Porém, não só nos ensaios Camélia era contida. Também nos desfiles mantinha a mesma inibição de gestos que obscurecia o esplendor da fantasia e reduzia seu gingado e sua beleza. Contudo, tal fato – embora por todos percebido – não era comentado, em respeito a Adroaldo.

Zininho estava lá, na mesa de sempre, no canto do bar. Elegante, terno branco na tarde quente, a piteira entre os dedos. Uma cerveja à frente e o olhar distante.

Trazia-lhe, aproveitando a oportunidade, a letra de um samba-canção para que, topando, ele a musicasse. Achava isso, porém, uma afronta à sua genialidade. Suas marchas e românticos sambas eram bons, muito bons, excelentes, mas não eram ainda sua obra definitiva. Eu o aguçava: – Nenhum gênio permanece impune, sabia? -Que gênio, cara! Só misturo um pouquinho de amor com muita paixão e faço disso um samba. É tudo! – se esquivava. – Tudo, um cacete – eu voltava à carga. – Esta ilha, Zininho, explodindo de tanta luz e mar espera seu próprio hino. Faça-o e te faças imortal – era insistente.

Zininho arrastou uma cadeira, convidando-me a sentar.
– É ainda sobre o hino ? -indagou, assustado.
– Também.
– Não desistes mesmo, cara!

Zininho já ouvira falar do sargento Adroaldo Meio, sem maiores detalhes. Contei-lhe, com todos os pormenores, sobre a solidariedade no caso do meu velho e o reconhecimento que lhe devia. Meu respeito e estima por Adroaldo tinham, portanto, essa inesquecível origem. E falei – ele já sabia, aliás – do troféu vencido por Odete.

-Sim…e daí? Onde entro neste tango?
– E daí que, ontem, após o ensaio da Escola, Adroaldo me chamou de lado pra dizer que Camélia decidira sair de porta-estandarte no desfile deste ano. É decisão sem volta, disse-me assim – secamente e áspero. E me intimou a informar Odete.
– Intimou?
– Maneira de falar, ô!

Zininho, com a bimba do anterior, acendeu outro cigarro na piteira, deu uma longa tragada, sorveu demoradamente a cerveja e permaneceu calado, o olhar distante. Repetiu esse ritual oito vezes, enquanto pensava. E eu ali, atento, a esperá-lo junto na cerveja. Finalmente, amassando o cigarro no cinzeiro e guardando a piteira no pequeno bolso no alto do paletó, falou peremptoriamente:

-Vejamos! Primeiro – e não vai nisso falta de respeito – teu pai acabou morrendo, com ou sem a solidariedade desse Adroaldo. Segundo, Camélia não decidiu ser porta-estandarte coisa alguma. Quem decidiu que Camélia seria a porta-estandarte no desfile deste ano foi ele, Adroaldo, porque não digeriu ainda o troféu ganho por Odete e que, na cabeça dele, ofusca sua Camélia. Terceiro, come essa Camélia e ela acaba – de uma só vez – com esses grilos do Adroaldo!

– Mas o que é isso? – eu pasmado. – Como vou comer a Camélia? E como sei se ela dá?

– Por parte: quanto a comer, suponho que já deves ter aprendido…
– Não fode!
– … e quanto a dar ou não, basta saber se ela suspira.
– Suspira?
– Sem surpresa, cara! Toda mulher que suspira dá, entendeu? E essa, pelo jeito, vive suspirando por todos os cantos da casa. Moleza! – e deu por encerrado o assunto.

Saí para a ofensiva:

– Tudo bem…e o hino à ilha? Ficas aí te perdendo nesses sambinhas de merda…
– Manera!
– … faz coisa grande, cara, à altura da inspiração que Deus te deu!
– Vamos com calma! – e, outra vez, didático: – Preliminarmente, esse negócio de hino é coisa tua, tá mais pra marcial e não faz meu gênero – dá pra entender ou não? No mérito: tu me traz uma prova de que Camélia suspira – morou? – e eu componho um rancho de amor à ilha!

Aspirou o cigarro na inseparável piteira e concluiu, maroto:

– Fechado?

Um puta risco, mas era necessário preservar Odete.

– Fechado!

Adroaldo já me esperava. No Salum, eu o olhava de soslaio. Não me parecia o mesmo. Zininho, que sabia das coisas, tinha razão. Era ele mesmo, invejoso e arrogante – como ontem à noite – quem desejava impor Camélia. E mentindo, forçando a barra. Sabia que ninguém entenderia a Escola sem o estandarte de Odete e que, sem o meu acordo, seria parada perdida. Pretendia, agora, cobrar a dívida de gratidão com os sentimentos de Odete. Iria matá-la de tristeza.

Em meio a tão penoso desencanto, fui tomado de estranha e incontida vontade de rir, de rir muito, mas muito mesmo. No silêncio da loja, retumbavam minhas incessantes gargalhadas.

– O que deu nele? – Adroaldo com olhos sur- presos para o surpreso Salum.

Finalmente, eu já reposto:

– Nossa Escola este ano vai ser um abafo, mui ilustre e insigne presidente Adroaldo de MeIo – nunca o tratara assim e, muito menos, nesse desprezível tom de ironia. – E tem mais! – já confiando no meu taco.

– Tua Camélia vai levantar, com aqueles lindos bracinhos nus, o troféu de melhor porta-estandarte para nossa Escola – meu respeito por ele indo pro beleléu.

Adroaldo – pedido aceito – sorriu aliviado, abraçando-me efusivo sob o olhar manso do aturdido Salum. Foi um abraço forte, de tamanduá velho, batendo-me nas costas com aquelas mãos enormes.

E saímos em busca de mais lantejoulas e purpurinas.

O resto de janeiro e o que deu de fevereiro foi tempo suficiente. Moleza! O bangalô, que parecia uma inexpugnável torre medieval, abriu-se complacente. Camélia, quem diria, hein? Uma doçura seus suspiros na cama. Como pode um homem arruinar uma mulher assim? Bem feito pro Adroaldo, virou corno!

No sábado de carnaval, como havíamos combinado, Zininho me esperava na mesma mesa do Bar Bom Dia. Logo que me viu, levantou-se com os braços abertos:

– E então, suspirava ou não?
– Toma lá! – e lhe estendi um delicado cacho dos pentelhos de Camélia, presos numa fitinha cor-de-rosa.
– Oh, esses suspiros!…
– Zininho em êxtase. Refeito, honrando o acordo, cantarolou:
Um pedacinho de terra perdido no mar
Um pedacinho de terra belezas sem par

– São os primeiros versos do meu Rancho de Amor à Ilha, viu? – levando sua piteira à boca, numa tragada infinda.

Domingo de carnaval com lua cheia.

Na Praça XV, frenética e toda iluminada, Odete gingava e o povo aplaudia. O estandarte em suas mãos rodopiava, rodopiava. A saia comprida formava uma roda colorida no ar e suas coxas mulatas recebiam aplausos também.

O Pardieiro. Francisco José Pereira. Florianópolis: Editora Garapuvu, 1999.

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