Foras-da-lei

Publicado em: 30/11/2010

Paulo Clóvis*

O médico odeia o SUS, mas não quer perder o vínculo empregatício e uma aposentadoria federal que, minguada hoje, será providencial lá na frente. Afinal, até a inatividade ele agregará alguns penduricalhos e o salário vai engordar um bocado. Resultado: aparece quando quer, chega tarde, sai cedo e ainda, filho de papai, se ampara nos direitos que julga ter para desafiar o diretor do hospital.

Outro tinha um histórico de retidão, de combate às injustiças, mas deu para assumir os piores vícios do serviço público. E aprontou tanto que um dia foi demitido por justa causa. Ficou na dele, até entrar na Justiça e ganhar a causa. Em outras palavras, voltou com as mesmas regalias e ainda botou a mão numa bolada, porque cobrou todos os centavos do tempo que passou fora do hospital. Ganhou com juros o não trabalho. Hoje, ri dos que agem dentro da lei, dos colegas, do contribuinte, do papa…

O sujeito pegou uma bolsa e foi para a Europa fazer doutorado. Lá, tomou os melhores vinhos, passeou por bibliotecas, vilas e cidades, e voltou escolado, cheio de referências – mas sem o título. Agora, na rádio onde lhe abriram uma janela, fala em ética, dá lições de moral, tenta se mostrar o intelectual que não é. E assim vai engambelando os ouvintes – quer dizer, os ouvintes que não trocam de estação quando ele começa a falar.

O indivíduo clama ao mundo que é poeta, gasta energia tentando se fazer admirado, mas é mestre em puxar o tapete de colegas e confrades. Esperou a primeira oportunidade e se alojou num cargo público. Ali, ficou à vontade para fazer o jogo do poder. Hoje, circula em rodas mais afinadas com seu novo status. Poesia? Que nada, a prioridade é segurar o emprego e, se der, alimentar projetos para uma futura cadeira na academia.

Ele fatura muito, o cartão de crédito da mulher passa dos R$ 10 mil por mês, mas não lhe cobre obrigações com o fisco. Imposto de renda? Para quê, se o governo não devolve nada, se as estradas estão um lixo, se é preciso ter plano de saúde? Agora, vai trocar de carro e de apartamento, mas pode ter certeza de que tentará se esquivar de todas as taxas que puder. E, pior, está criando os filhos com essa mesma mentalidade.

O outro se encostou na mulher divorciada porque ela tinha uma boa profissão, uma boa renda, bens – e uma ética que veio do berço. Ele deu o primeiro golpe, ameno, discreto. Depois deu outro, mas ela absorveu, achou que era um defeito tolerável. Hoje, ela quer fazer Direito para ganhar a vida não importa por que meios. Foi contaminada pelo elegante fora-da-lei.

*É autor dos livros “Pequena História do Teatro Álvaro de Carvalho” e “Mercado Público e suas Histórias”. Atualamente escreve no jornal Notícias do Dia e a Agência de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina.

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