Futebol faz amigos

Publicado em: 08/04/2013

Dizem que futebol faz amigos… Meu pai nunca foi um grande incentivador da prática de esportes coletivos pelos filhos, pois um “nocaute” numa disputa de rebote, no basquete; e uma grave fratura na perna, no futebol, o fizeram perder o gosto por eles. Por conta disso, só comecei a jogar futebol com onze anos de idade. Além da falta de prática, a evolução da miopia já causava insegurança. Daí, eu era um autêntico perna-de-pau! Para “piorar”, eu era bom aluno, e não demorou muito para ser tachado de CDF pela “turma do fundão”. Na lógica pré-histórica dessa manada, bom aluno não pode ser bom em mais nada! Como a teimosia é uma de minhas principais características – coisa de capricorniano -, um dia eu disparei da defesa, trombei com uns três ou quatro adversários e, de repente, cruzei a bola com precisão para um arremate certeiro de um colega…

Do dia para a noite, aprendi! Daí em diante: eu, Barata e Mário nos tornamos o terror das defesas adversárias! Competíamos entre nós para ver quem marcava mais gols por partida!

Porém, quem controlava o time da classe era a famigerada “turma do fundão”, que não tinha nem Ganso, nem Pato, mas tinha o Marreco.

Eram bons de toque, mas não saíam do meio de campo. Assim, eu e o Mário – bons alunos – nunca fomos escalados para os torneios.

Ainda adolescente, comecei a trabalhar de dia e estudar de noite.

Futebol? Só aos sábados e domingos.

Conheci uma turma, na praia, e entrei no time.

Foram vários meses de jogos e ficamos amigos. Ou, ao menos, parecia assim…

Num sábado, desabou um temporal fenomenal, daqueles que os pingos de chuva machucam e não dava para ver um palmo à frente do nariz. Como também trovejava, sem pensar duas vezes, todos saíram correndo da praia ao mesmo tempo, cada um para a sua casa.

No dia seguinte, na hora do almoço, dois dos amigos apareceram em casa…

Estranhei, pois ainda era muito cedo para ir para a praia e o tempo ainda estava nublado. Um deles, o dono da bola, perguntou se eu estava com ela… Surpreso, respondi que não! No mais, todos tínhamos fugido da chuva ao mesmo tempo!

Ele concordou, mas perguntou, em tom desconfiado, se eu não havia voltado para buscá-la, já que minha casa era a mais próxima da praia!

Estupefato, neguei novamente! O que ele estava pensando?

Ato contínuo, eles se despediram e, de repente, nunca mais os vi ou joguei com eles. Sumiram do mapa!

Pouco tempo depois, entrei na faculdade. Foram cinco anos de aulas, trabalhos e uma tal “dureza”, que mal dava para ir ao cinema.

A única extravagância que me permiti foi a compra de lentes de contato.

Esportes? Só raramente e, mais uma vez, ser bom aluno tornava um erro de toque ou conclusão sinônimo de grossura. Mesmo assim, fui melhorando e cheguei à reserva do time de futebol de salão da classe, que era muito bom, aliás!

Ironias da vida, vários anos depois, já formado, encontrei o dono da bola do episódio da praia, numa reunião de colegas de turma: ele era conhecido de um deles.

Fui cumprimentá-lo normalmente, mas ao lembrar do assunto ele, em vez de uma retratação amigável, disparou que achava que eu pegara a bola mesmo!

Perguntei no que ele se baseava para afirmar aquilo. Ele confirmou que era por eu morar mais perto…

O sangue ferveu! No entanto, para não estragar a festa, afirmei que aquilo era ridículo e nunca mais tive vontade de falar com ele, embora o destino o tenha colocado algumas vezes no meu caminho profissional.

Pouco tempo depois, também num jogo de futebol de praia, eu protegia a bola, que já tinha o caminho certo do gol, quando fui desequilibrado por trás – aquele famoso toque para trançar pernas… – e projetado com o rosto contra a trave de tubos de PVC, que partiu-se com o impacto. Por muito pouco não sofri um grave acidente!

Não bastasse irresponsabilidade da falta e a violência da queda, o autor da infração, em vez de acudir e desculpar-se, esboçou um sorriso malicioso e afirmou: “- Não pude resistir!”.

Num jogo oficial, ele teria recebido cartão vermelho e suspensão por várias partidas, mas quando pronunciei o que pensava de sua atitude, ele é que se achou ofendido!

Talvez eu não tenha dado sorte, mas descobri que o futebol até pode fazer amigos, mas é mais pródigo em revelar o lado menos nobre da personalidade de alguns…

Desde então, nunca mais joguei futebol regularmente. Perdi o gosto pela prática, mas não pelo esporte, pois não foi culpa dele.

Além disso, numa época em que Zico, Falcão e Sócrates desfilavam pelos gramados, eu não teria a mínima chance de chegar à Seleção Brasileira…

Por Adilson Luiz Gonçalves
Membro da Academia Santista de Letras
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor
Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)
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Santos – SP

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