Gagarin e o mundo em 1961

Publicado em: 26/04/2011

Minha geração foi marcada profundamente pela conquista do espaço. Há 50 anos, no dia 12 de abril de 1961, acompanhávamos encantados a façanha do piloto soviético Yuri Gagarin, primeiro homem a dar uma volta em torno do planeta, numa nave Vostok 1, em apenas 108 minutos.”A Terra é azul”, constatou Gagarin.Lá de cima, numa frase simples e poética, o jovem cosmonauta descrevia: “A Terra é azul”. O sorriso juvenil e feliz do novo herói inundava as primeiras páginas de jornais e revistas de todo o mundo. Era uma das mais eficientes formas de propaganda de que se valiam a União Soviética e os comunistas naquele momento. Nossa geração, é claro, não podia permanecer imune àquela propaganda.
Por ironia, cinco dias depois que Yuri Gagarin deu a primeira volta em torno da Terra, os Estados Unidos patrocinaram a desastrosa invasão de Cuba por exilados treinados pela agência de inteligência americana (CIA).

O primeiro grande impacto da conquista do espaço havia ocorrido em 1957, com o primeiro Sputnik. Do lado norte-americano, tentativas frustradas de lançamento de satélites muito menores nos reforçavam a convicção de uma nítida superioridade soviética. No dia 12 de fevereiro de 1961, a União Soviética já havia lançado até uma sonda ao planeta Vênus, a Venera 1.

O segundo cosmonauta soviético, Gherman Titov, foi ao espaço no dia seis de agosto de 1961, fazendo seu voo orbital com 17 voltas em torno da Terra, durante 25 horas e 18 minutos, a bordo da nave Vostok 2. Nikita Kruchev, primeiro-ministro soviético, usou o voo de Titov para defender o ateísmo. Deve ter perdido milhões de simpatizantes cristãos e de outras religiões, ao ironizar a existência de Deus. Cito de memória suas declarações: “Mandamos um homem ao espaço para ver se Deus existia mesmo. Gagarin não achou nada.

Insistimos na tentativa e mandamos um segundo homem em busca do Padre Eterno. Titov deu 17 voltas em torno da Terra e comprovou: Deus não existe”.

Vostok

O ano de 1961 daria um livro, apenas para analisar os grandes acontecimentos que marcaram a história do mundo e do Brasil. Vivíamos empolgados não apenas pela corrida espacial, mas também assustados pelos riscos de um conflito nuclear mundial – pesadelo que sentimos de perto, aliás, na crise dos mísseis de Cuba, de outubro de 1962.

Havia várias revoluções políticas e culturais em gestação no mundo em 1961. No dia nove de fevereiro, os Beatles faziam seu primeiro show no Cavern Club, o clube de rock em Liverpool. Meses depois, o bailarino Rudolf Nureyev, asilava-se na França, durante a visita do Balé Kirov a Paris.

No dia 20 de janeiro de 1961, tomou posse o presidente John Kennedy, em sucessão a Dwight Eisenhower. No dia quatro  de fevereiro, começou a guerra de independência de Angola, no processo que envolvia dezenas de países, entre os quais Argélia, Congo, Serra Leoa e Tanganica (hoje Ruanda, Burundi e Tanzânia). No dia 13 de março, os EUA anunciavam a Aliança para o Progresso. Tudo sob o pano de fundo da guerra fria.

Meta: levar um homem à Lua

No dia cinco de maio, os norte-americanos lançaram Alan Shepard ao espaço, primeiro astronauta dos Estados Unidos a fazer um voo suborbital, a 187 quilômetros de altitude. A grande reação norte-americana iria ocorrer com o lançamento do Projeto Apollo. Em 25 de maio, Kennedy lançou o Projeto Apollo com o compromisso de “levar um homem à Lua e trazê-lo de volta com segurança” até o fim daquela década. O astronauta Gus Grisson, segundo norte-americano a ser lançado ao espaço, fez seu voo suborbital no dia 21 de julho, pilotando uma nave Mercury-Redstone.

A 13 de agosto – não poderia ter sido em dia mais apropriado – russos e alemães orientais decidiram iniciar a construção do Muro de Berlim, que iria dividir a cidade por 28 anos, até 9 de novembro de 1989.

Senti o impacto pessoal ao visitar o muro em 1985. Antes de entrar na Alemanha Oriental (República Democrática Alemã), passei algum tempo na plataforma de observação, do lado ocidental, em companhia de outros jornalistas brasileiros. Mudos, olhando por cima do muro, não sabíamos o que dizer, diante da visão daquela praça tétrica e deserta, dos prédios com suas janelas vedadas com cimento e tijolos, das sentinelas russas com seus fuzis e binóculos e do canal onde morreram, metralhados, algumas dezenas de infelizes que ousaram cruzar a fronteira de dois mundos.

Alguns de nós comentávamos, constrangidos: “Era esse o socialismo com que sonhamos? Como pudemos ficar impassíveis – e até apoiar algo tão desumano e estúpido quanto este projeto?”

Há, portanto, muitas razões para que reflitamos hoje não apenas sobre os 50 anos do voo de Gagarin, mas, especialmente, sobre o mundo de 1961, que as novas gerações parecem desconhecer.

As consequências de muitos acontecimentos de 1961 ainda se fazem sentir no mundo e no Brasil de hoje. A renúncia do ex-presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, por exemplo, deu início a um conjunto de mudanças institucionais artificiais que apenas adiaram o golpe militar que já se preparava e iria ocorrer, em sua plenitude, em 31 de março de 1964. Trazendo-nos 21 anos de ditadura.

Em nome da democracia.

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