Garapuvus

Publicado em: 10/01/2006

Dele sairiam tranqüilamente duas canoas: uma grande, bordada, outra pequena, de borda lisa, quem sabe as mais audazes dos últimos quinhentos anos. É árvore para tanto. Mas que não passe nunca pela cabeça de Seu Agenor permitir que algum bicho carpinteiro faça isso com o garapuvu de imperial beleza que habita o seu quintal e que é uma das mordomias dos meus olhos.
Por Flávio José Cardozo

Sentado, batucando as minhas teclas, se quero um colírio rápido e amigo é só levantar a cabeça: enquadrado bem no meio da janela, resplandece o garapuvu de Seu Agenor. Me habituei, já por uns oito anos, a vê-lo como um vizinho que me grita do lado de lá da cerca: “E então, tudo florido por aí?”.
Florido está ele, o danado. Este ano, nem sei porque, enfeitou-se mais cedo, antes de todos os outros já tinha posto seu amarelo chapéu de abas largas. Deve Ter sido alguma comemoração mais íntima, algum namoro com que nem sonha a minha vista rasteira. Mas mesmo agora, quando o morro já se povoa de dezenas de umbelas salientes, o garapuvu de Seu Agenor brilha como um medalhão de primeira magnitude, enorme gema pontuando com decisão, até mesmo com certa arrogância, o forte verde da paisagem.
Vai uma confissão que nem precisava fazer: minha árvore de estimação é o garapuvu, também conhecido por sonoras variantes como garipivu, guapuruvu, guapirivu, guaburuvu, guarapuvu, bacurubu, bacuruvu, bacuruva e ainda por ficheira, pataqueira, pau-de-vintém, faveira, bandarra, birosca. Nomes é que não lhe faltam. Como não falta beleza. Os nomes vi num livro de mestre Raulino Reitz e a beleza só aprendi a ver mesmo quando, morando fora da Ilha, aqui vinha passar meus dias de férias. Fui percebendo que a Ilha era um viveiro, a morada por excelência, um paraíso dessas criaturas altaneiras.
Pus-me a admirá-las com olhos e palavras. Sempre que passava por uma especialmente vistosa, era uma enfiada de ohs perplexos, a ponto de um dos meninos Ter feito a observação perversa: “Se a mãe morrer, o pai casa com um garapuvu, não é?” Exagero de criança. O garapuvu é uma árvore linda mas muito alta e eu ia ficar ridículo ao lado dela.
Plantei aqui em casa minha meia dúzia de garapuvus. Foi tudo sem ciência nenhuma, confiando apenas na boa vontade do terreno e na fama de que eles não têm mesmo muito luxo e crescem com grande rapidez. Pois não é que o primeiro deles está botando os seus dourados!
Não é que este ano vou Ter meu garapuvu – modesto ainda, sim, em nada comparável ao monumento de puro ouro que é o do Seu Agenor – mas não é que já vou ter meu garapuvu próprio! Estou confiante. Na batida dos ventos, ele desprendeu umas trezentas moedas que me pareceram do melhor quilate.
Quero que Seu Agenor olhe para cá e goste do que estiver vendo. Quero ter a alegria de pagar Seu Agenor em dobro, em triplo, em sêxtuplo. Perdulariamente.
 
(Do livro Beco da lamparina, Florianópolis, Lundardelli / Diário Catarinense, 1987) 


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