Garçom do Poder

Publicado em: 23/02/2005

Muitos profissionais que atuam nos meios de comunicação costumam se posicionar nos dois lados do balcão ao mesmo tempo, ou seja, trabalham também em assessorias de imprensa nos órgãos públicos, nos três poderes.
Por Léo Saballa de Joinville

O tema é polêmico e tem rendido amplas discussões nas faculdades de comunicação. Essa dupla jornada é uma herança que remonta ao amadorismo de quem fazia bico quando ocupava espaço nos estúdios e nas redações.

Em muitos casos a direção dos próprios veículos se encarregava de “fazer o meio de campo”. Como o salário era uma merreca, esse encargo recebia complementação do poder público que também contratava o profissional, assumindo a sua parte, numa promíscua parceria público/privada que garantia a permanência de alguém na redação. De quebra, a informação chegava temperada ao gosto do patrão. Nada mais cômodo. Ainda hoje isso acontece e provoca situações bizarras.

Cena 1: João é aspone de uma repartição no período da tarde. Cobre o encosto da cadeira com o paletó, toma cafezinho e prepara um release devidamente adjetivado. Depois, providencia o encaminhamento do material para garantir a divulgação.

Cena 2: João chega de manhã na rádio, TV ou jornal onde trabalha. Toma cafezinho, separa a correspondência e dá uma rápida olhada no que vai ser aproveitado. Meia hora depois está à frente da câmera, do microfone lendo o mesmo release que produziu no dia anterior, no outro lado do balcão, ou no computador do jornal editando o texto chapa branca para publicação no dia seguinte. Às vezes, João comenta o release, sempre de forma positiva e colorida como se o estivesse avalizando. Faz espuma com o nome do chefe e não perde a oportunidade de entrevistá-lo. Afinal ganha para isso.

Conclusão: o ouvinte, o leitor ou o telespectador nem imagina que o indivíduo condutor daquilo que deveria ser notícia, também recebe todo mês um contracheque do erário. No fundo, é um garçom contratado pelo poder. Em outras palavras, o ouvinte é enganado e consome um produto adulterado, de procedência duvidosa, já que o seu direito à informação isenta está inteiramente comprometido por causa de um jabá oficial que rola no meio do caminho.

Nada contra o trabalho em órgãos públicos. Pelo contrário. Grandes profissionais atuam e outros já atuaram nesta área, que é um excelente campo para exercitar a comunicação. Exige competência e criatividade. O pecado é botar o cotovelo nos dois lados do balcão ao mesmo tempo.

Quando o tema é colocado na mesa, João garante que nada disso é ilegal, faz cara de injustiçado, diz que estão querendo derrubar a bandeja dele e sai de fininho. Na verdade, João não está cometendo nenhum crime. Apenas não consegue olhar nos olhos de um princípio básico do ser humano: a ética na profissão. João sabe que está errado, mas prefere jogar a culpa no baixo salário que o veículo lhe paga e nas negociatas do seu sindicato que sempre bate o martelo fixando o piso salarial inferior ao do garçom do boteco da esquina.

A comparação com a atividade de garçom é apenas uma figura de linguagem e não significa nenhum menosprezo aos profissionais de bares e restaurantes, que honradamente exercem a sua profissão.

Felizmente essa safra de garçons do poder da qual João faz parte, está sendo expurgada aos poucos dos meios de comunicação. Há uma nova geração de profissionais que abominam essa prática e vestem o manto da ética como se fosse uma segunda pele.

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Léo Saballa é Radialista em Joinville

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