Golpe de 64: Memória de um assessor de Comunicação Social

Publicado em: 19/03/2014

Nos primeiros dias de abril de 1964 fui chamado por um até então colega, que eu sabia ser ele filho de um oficial do Exército sediado em Florianópolis.

imagesSentado e espantado por ver ali um até então membro de nosso grupo anti corrupção com cara e postura de inquisidor Espanhol. Ele arremeteu: – E tu colega, qual é tua posição nesses acontecimentos motivados pela Revolução Redentora?

– Caro colega, sou concursado pelo DASP, como é sabido por você e fui nomeado pelo Governo Federal para o cargo burocrático público…

– Claro que eu não sou concursado, mas como estudante de Direito entrei como Estagiário, e após dois anos fui efetivado nos termos da Constituição de 1946 e Lei 1711/52, como você… Mas diga-me, qual sua posição diante dos fatos?

– Sou funcionário público federal, não tenho filiação partidária e em quaisquer manifestações ideológicas, hierarquicamente obedecerei ordens legais e eticamente aceitáveis. Não tenho ligações com os atores desse Golpe Militar.

– Correção Colega: a Revolução Redentora nasceu do clamor das ruas e da situação de risco em que o país estava ameaçado de cair na fossa comunista, tal como aconteceu com Cuba…

– Em relação a esse assunto, sobre conceitos políticos, sou neófito e não tenho intenção de me envolver. Tenho compromisso com meu Juramento de Investidura e sou disciplinarmente ligado ao Governo da República Federativa do Brasil.

– Mas voce aceita trabalhar conosco, em posição melhor e mais segura, do que o cargo que exerce agora?

– Como já afirmei, sou funcionário público federal e as missões que me forem determinadas, as cumprirei profissionalmente…

Depois dessa “entrevista”, o pequeno personagem, pensando crescer intimidativamente, advertiu:

– Você trabalhou com várias gestões de diversos engenheiros chefes, a maioria submetidos a Inquéritos Policiais Militares, mas tem um currículo profissional e funcional invejável…

– Sem dúvida alguma trabalhei com chefes muito competentes e jamais vi ou soube de anormalidades administrativas da parte desses meus diretores regionais…

– Então estamos conversados…Vou mandar expedir uma Portaria designando você para o cargo de Assessor de Comunicação Social do 16º Distrito Rodoviário Federal – DRF.

Tais funções foram inéditas nas relações com a imprensa em geral permitindo-lhes o acesso aos arquivos e informações sobre as obras rodoviárias das oito estradas federais e respectivos projetos de suas duplicações que vieram a acontecer após trinta anos da Nova República.

Personagem nesse período, Moacir Pereira e tantos outros jornalistas eram bem recebidos pelo corpo de engenheiros e pelo diretor regional.

Os press releases sempre foram instrumentos e ferramentas adicionais nessas coberturas diárias, sem qualquer tipo de competição com o trabalho profissional dos jornalistas, embora isso tenha me causado sérios confrontos com a parte mais radical de alguns foncionários desejosos de também ter seu espço nas janelas da comunicação.

Por melhor que fosse nosso trabalho, ainda assim muitas laudas foram extraviadas ou desviadas, pois em cada órgão público federal, estadual ou municipal, havia pelo menos quatro espiões de plantão de diferentes segmentos da repressão.

Tempos incríveis aqueles de1964 a1985 quando o teu colega de bureau, ao lado, no teu ambiente de trabalho, era ou pensava ser o teu carrasco. Perigosos e doentios, se consideravam com o poder de vida e morte de um inocente colega de ofício.

Quantos famílias foram perseguidas e chantageadas por esses fantoches do mal. Muitos estão aí, vivos e de cara lavada pelo esquecimento no tempo – que é a maior doença do brasileiro – a acomodação.

As laudas se perderam… Os livros foram queimados em praça pública e os carrascos das masmorras policiais chegaram a trucidar até mesmo membros de suas próprias famílias, tudo sob a complacência e até estímulo de certos setores das diversas confissões religiosas sob a alegação de que não sendo entidades políticas, não tinham nada ver com os entreveros sangrentos que destruíam vidas preciosas entre irmãos.

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