Gosto do rádio, mas só de longe

Publicado em: 27/08/2012

Estamos em 2007. Nem faz tanto tempo assim. É o quarto de um adolescente de 13 anos. O cômodo é pequeno e preenchido por um guarda-roupa e um beliche. No guarda-roupa, recortes de jornais com jogadores do Figueirense e São Paulo FC insinuavam a preferência futebolística. Sobre o beliche, o único aparelho eletrônico do quarto, um toca-fitas que vivia sintonizado no 740 AM. A aproximação entre o garoto e o aparelho foi pelas vias do esporte.

Ilustração: Gessony Pawlick Jr

Um fissurado torcedor do alvinegro que ouvia as Jornadas Esportivas da CBN, àquela época narradas por Sales Junior e Luis Augusto Alano e comentadas pelo comendador e por Carlos Eduardo Lino. Quando terminava o jogo, não importava se o time triunfava ou amargava a derrota o som continuava falante até que o Tarrafinha arrematasse com as Frases da Jornada.

Envolvido nas brincadeiras da adolescência, na verdade, um futebol de botão improvisado com tampinhas de garrafas pet, eu, o garoto de 13 anos, distraído, deixava o rádio ali falando com as paredes.

Às quartas-feiras a Jornada terminava tarde, depois do Tarrafa, a voz inefável de Alves de Melo chegava aos meus ouvidos e foi então que a notícia do rádio começou a me cativar. Deitado, aos poucos, o sono me ganhava. Certa vez, insone, descobri que o Programa do Jô também era veiculado por ali. Este rádio pode mesmo ser bom!

Uma estranha postura denunciava que meu ouvido estava viciado. É que o rádio acompanhava-me ao banheiro. Ficava sobre a pia e eu demorava mais ao chuveiro. Mamãe interveio prevendo uma catástrofe: a umidade vai estragar o teu som.

A separação entre mim e o velho contador de notícias se deu sem traumas depois. A rotina tornou-me vestibulando e ouvir uma Jornada virou uma joia rara que eu só via reluzir aos finais de semana. Assim, afastei-me do fanatismo pelo futebol e naturalmente pelo rádio. Mas foi aquele eletrônico preto quem me inoculou a paixão pelo jornalismo.

A dicção do jovem que sou hoje, a mesma do garoto que fui ontem, que fala “Figueiuense” em vez de Figueirense, impede-me de narrar como Sales Jr. (parte o time do Figueirense com a bola dominada na intermediária, vem Cícero, Soares se apresenta para receber, ninguém para o Cícero já na grande área do Grêmio ele vai arriscar, bateeeeu pro goooooooooooooooooooooool. É a máquina do Estreeeeeeeito).

Emoção! Encosto a cabeça no elevador da redação, que marca o 18º andar. Olho para o lado e vejo um radialista cinquentenário. Era um dos meus ídolos da Jornada e ele me encarou como se estivéssemos na mesma sintonia. Puxa, vá saber se essas ondas não influenciam a frequência da nossa razão, sei lá.

Nos por fins dessa historieta, aconchegada na minha memória, lembro que a simplicidade dessas lembranças inspira-me a imprimir nas páginas de jornais narrativas ricas como a dos radialistas, que levam seus ouvintes à informação e também dos gramados do Brasil para acompanhar o clube do coração.

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