Harmonia e as igrejas

Publicado em: 15/01/2014

Deus, transcendência, religião, igreja, culto, fé, sagrado, finitude, espiritualidade, maldade, diabo, fraqueza – colocamos tudo no liquidificador e ficamos nos perturbando para separar uma coisa da outra em busca do viver feliz que parece nunca chegar. Dessa lista tiro para rápido enfoque igreja/religião e indago: quantas são elas no Brasil de hoje? Duvido que alguém saiba. Nunca antes tantos templos diferentes surgiram (quase um por esquina) e, de forma contraditória, os frios números das estatísticas maléficas dos crimes só cresceram entre os brasileiros. Quanto mais rezamos piores ficamos?

Para Alain de Botton inventamos a religião para servir a duas necessidades que a sociedade secular foi incapaz de resolver: 1) a de viver juntos e em harmonia apesar dos impulsos egoístas e violentos profundamente enraizados; 2) a necessidade de lidar com aterrorizantes graus de dor, que surgem da vulnerabilidade ao fracasso profissional, a relacionamentos problemáticos, à morte de entes queridos e nossa decadência e morte.

Ao analisar o papel das religiões e por em evidência sua importância para a humanidade (“as religiões são sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com todas as nossas emoções”) Botton destaca algo que incomoda a muitos: “Entre as características intragáveis da religião está a tendência dos clérigos para falar com as pessoas como se eles, e somente eles, detivessem a posse de maturidade e de autoridade moral”. E que são infalíveis nos seus ensinamentos e por isso não precisam se preocupar como repercutem na mente dos fiéis as palavras que proferem. Especialmente das crianças que não possuem a capacidade de racionalizar a mensagem que recebem.

Alguns dados mostram que a questão é velha e complexa. Entre os séculos 15 e 17, a Europa, segundo clérigos de então, era infestada de bruxas. “Disfarçadas e infiltradas entre bons cristãos, adoravam o diabo em segredo. Nas noites escuras roubavam bebês recém-nascidos e os esquartejavam antes de receber o batismo, depois ferviam os corpos no caldeirão para fabricar venenos e poções”. Diz José Botelho que tais relatos fantasiosos vêm de livros como Martelo das Feiticeiras (1487) e o Quadro da Inconstância dos Anjos Malvados e Demônios (1612), manuais usados para caçar e exterminar nas fogueiras milhares de “agentes de Satã”.

Passam-se séculos e a religião assume contornos privilegiados com o grande Karl Marx. Segundo site das Testemunhas de Jeová “não se pode dizer que, para Marx, a religião é simples invenção de sacerdotes falsários ou dominadores. É a manifestação da humanidade sofredora em busca de consolo. É ópio pra o povo, calmante para a massa que sofre a miséria gerada pela exploração econômica”.

Contemporâneo de Marx Ludwig Feuerbach se preocupou com o fenômeno religioso afirmando que na religião há carência da consciência de si do homem e na carência aliena sua essência. Para cessar o estado de alienação e empobrecimento o homem devia trocar a religião cristã por outra de amor à humanidade. Na prática os marxistas o fizeram com seu comunismo (socialismo real) cheio de dogmas (partido único, centralismo democrático, paraíso terreno, banimento e assassinato de quem discordava – impulsionado pelo demônio burguês, pelo diabo capitalista).

Com pensadores como Botton parece alcançamos postura mais equilibrada sobre religiões. E se a ele preocupa a empáfia de alguns clérigos indago por que algumas igrejas exigem tanto dinheiro dos seus seguidores? E por que a harmonia no viver juntos não vem na proporção que as igrejas proliferam? São ou não boas reflexões para 2014?

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