Hélio Costa e o futuro da mídia

Publicado em: 14/11/2009
Hélio Costa, ministro das Comunicações

Hélio Costa, ministro das Comunicações

Qual será o futuro da mídia ou qual será a mídia do futuro?
Estamos na transição do que chamamos de convergência, que vai alterar de forma significativa a maneira como vemos a mídia e como produzimos para a mídia. Altera a vida do jornalista, do leitor e do espectador. Os veículos estão se modernizando. As ferramentas existentes hoje dão agilidade extraordinária aos jornalistas. A competição entre o eletrônico e o impresso é brutal, pode determinar inclusive uma migração completa do impresso para a midia digital. Os jornais que aparentemente alcançaram sucesso de venda têm formatos menores, os tablóides, com venda direcionada para o fato do dia, não necessariamente o fato político, mas o que pode sensibilizar na fila do ônibus ou do metrô as pessoas que estão indo para o serviço. Vai ser uma mídia diferente. No futuro, a maneira como nós lemos o jornal, vemos TV e ouvimos rádio vai ser outra. Teremos uma central de comunicação em cada residência, onde vão se misturar a internet, a TV, o telefone. Será o seu centro de comunicação e não necessariamente o rádio, a TV, o telefone separadamente.

E como funcionará esta integração?

O governo tem um estudo em andamento com projeção de como estará o Brasil no ano de 2022, para a comemoração do bicentenário da independência. Cada ministério está fazendo a sua contribuição. Como o ministério das Telecomunicações se vê em 2022? É um tanto George Orwell, meio ‘1984’. O futuro é sem fio. Vai haver portabilidade universal. Não creio que o computador tenha muito futuro, porque está sendo superado por instrumentos menores e cada vez mais eficientes, que são portáteis. Principalmente em função de seu tamanho, o computador vai acabar um dia se tornando um entulho em casa. Acredito que vá ser substituído por uma projeção mínima e fina, então com um telão na parede, sem fio, conectável com qualquer máquina que chegue perto. Não é possível ser muito preciso. Mas o futuro será moderno, rápido e sem fio. Terabyte (nota: medida equivalente a 1024 gigabytes de dados) será uma palavra recorrente.

O senhor diz que o jornal migrará para este mundo digital. O jornal vai acabar?
Não acaba. Sobrevive nestes outros suportes digitais. E o jornal sempre terá um segmento conservador, tradicional, que se encontra em todos os países. Recentemente estive na França e entendi. O francês tradicional gosta de abrir o ‘Le Monde’, o ‘Figaro’. Gosta de folhear o jornal, sentir o papel, até sujar as mãos com a tinta de impressão. Os americanos, por exemplo, têm mania de comprar um tablóide ao entrar no metrô. Antigamente era desconfortável abrir o jornal no transporte público e ficar com o braço na frente do rosto de outra pessoa. Mas com o tablóide, você usa o seu espaço. O primeiro grande tablóide de sucesso nos EUA foi do ‘Daily News’, em Nova York, justamente por isso, ou o ‘Sunday’, em Londres. Este formato sobrevive bem, tem sido o último grande sucesso de mídia do Brasil. Em Belo Horizonte há o jornal de maior circulação nacional, o ‘Super Notícias’, com 360 mil exemplares por dia. O jornal de maior circulação do país está em Belo Horizonte. E há, inclusive, formatos semelhantes em várias cidades. Em São Paulo foi lançado o ‘Metro’ (nota: pertencente ao Grupo Bandeirantes) um grande  sucesso.

E as TVs? Sobreviverão à contínua queda de audiência?
A televisão já deu o passo que tinha que dar na modernidade e está garantida por 10 anos, no mínimo, com a TV digital. Nesses 10 anos, a televisão será um outro veículo. Ela já tem potencial para não ser – e não será – estática. Você terá uma imagem muito bonita, muito nítida, em alta definição, áudio de cinco canais, com perfeição. E tem ainda um instrumento formidável que é a interatividade. As pessoas vão se comunicar com a TV, em vez de ficarem apenas sentadas ouvindo, quietas, sem falar e sem poder reagir. Agora é possível reagir, se manifestar, da mesma forma que um jornalista faz num jornal e os sites incentivam, ao abrirem um espaço para o leitor escrever seu comentário ao fim de uma notícia. Pode ser uma opinião inapropriada, mas é a opinião da pessoa. Vamos ter isso com a televisão. Ela vai sobreviver com a TV digital.

Mas elas resistem a entrar no mundo digital, não é?

Considero um erro grosseiro das emissoras não estarem avançando o mais rapidamente possível além da fase da implantação, depois de o governo ter feito um esforço muito grande para oferecer todos os caminhos para que a implantação seja rápida. Viabilizamos os canais, criamos todos os procedimentos técnicos para que as emissoras criassem os canais digitais, mas elas não estão promovendo seu produto. Um exemplo: Chego em uma grande loja de eletroeletrônicos e encontro todos os televisores ligados numa imagem analógica, distorcida, horrível, num telão enorme, porque quanto maior a tela pior fica a imagem analógica, que se distorce. Digo para o vendedor: “Por que você não põe uma imagem digital aqui?”. Ele pergunta: “Como”?. A resposta é simples: “Ligando”. Grande parte dos televisores já tem o conversor embutido. Se você colocar um clipe de metal atrás, a TV sintoniza, não precisa nem de antena. Nem o vendedor sabe o que está vendendo.

Por que as emissoras não promovem a transmissão em alta definição?

Há uma falta de popularização e as emissoras têm de fazer isso. No dia em que aparecer na novela um personagem vendo TV pelo celular, mostrando que a imagem é perfeita, melhor até do que uma imagem analógica em uma aparelho de 20 polegadas, isso começa a mudar. Não entendo porque não
se promove isso.

Como a entrada das companhias telefônicas no setor modifica o cenário?

As teles estão explorando todos os outros recursos de colocar imagem através de celular, com muita competência. No entanto, tudo é pago. Hoje, por dados, acessa-se qualquer coisa, vê-se qualquer coisa.

De que forma o projeto de lei 29 altera a forma como se vê TV no Brasil atualmente?
O PL 29 se propõe a ser uma regulamentação da TV por assinatura. Não pode ser considerado uma disputa entre televisão aberta e teles. É uma proposta muito simples, do lançamento da TV a cabo, que não entra em detalhes ou esclarece quais são os procedimentos das companhias telefônicas, o que elas podem ou não fazer. O que a gente propõe com o PL 29 é regulamentar.  O foco central da discussão entre emissoras de TV e as teles é que, se se abre todo o espaço neste campo da convergência digital e autorizar que as empresas de telefonia possam comprar conteúdo, as emissoras de TV certamente vão perder espaço. Por isso que têm medo dessa competição. O que o PL 29 tem resguardado é que cada um fique no seu espaço. As teles vão trabalhar como exportadoras de imagem e as TVs vão trabalhar como produtoras de conteúdo.

O senhor acha isso possível num ambiente de convergência de mídia?
Tem que haver este entendimento, porque há de se levar em consideração de que a TV e o rádio no Brasil são dois veículos extremamente populares e presentes em 99% dos lares. A maneira como você interage com a população como um todo ainda é pela TV e pelo rádio. Até porque, pelas dificuldades sociais que temos, nem todos podem comprar jornal, ler uma revista. Rádio e televisão, entretanto, todo mundo tem. Então é por aí que haverá a interação.

Mas empresas de internet poderão continuar a produzir conteúdo jornalístico?

Na verdade, neste caso produz-se conteúdo jornalístico para uma empresa de comunicação que tem uma saída pela internet. Atualmente não há nenhuma legislação específica sobre isso. O que o PL 29 se propõe a fazer é começar a legislar sobre isso.

Qual é a orientação do governo aos parlamentares da base em relação ao PL 29?

Encontrar o acordo, uma convivência harmoniosa entre os dois setores: radiodifusão e telecomunicações.

Como o governo imagina expandir o uso da internet banda larga com um incentivo nos moldes do Bolsa Celular?
Já fizemos programas de inclusão digital para preparar o país para o grande projeto nacional de banda larga. Conseguimos fazer um programa para levar um telecentro (conjunto de computador, roteadores, móveis, telão e DVD) para cada um dos 5.465 municípios brasileiros. Nas grandes cidades, não faz muita diferença. Mas são apenas 200 as grandes cidades. O resto são pequenas cidades, que passaram a ter acesso à banda larga. Há quatro anos, quando cheguei ao Ministério de Telecomunicações, havia 700 cidades no Brasil com banda larga. Hoje são todas. Foi um grande avanço. O segundo foi o programa Computador para Todos. Há quatro anos, um computador custava R$ 3.500. Hoje, custa R$ 800 e pode ser comprado em parcelas. Na seqüência, propusemos às teles um programa de colocação de internet banda larga nas escolas. O resultado é que temos hoje de 35 a 40 mil escolas adotadas. Vamos chegar agora a 50 mil e até o final do governo do presidente Lula até 100 mil escolas na zona urbana. O impacto disso numa cidade do interior é enorme. Se o prefeito for inteligente, coloca um roteador de R$ 150 reais na escola e distribui a internet, sem fio, para o centro da cidade. Agora, há o  projeto de banda larga nacional, que está em fase de elaboração e será apresentado ao presidente Lula entre os dias 16 e 19 de novembro.

O governo está disposto a reduzir os impostos de componentes que permitam a expansão da banda larga, como os modens?
Se não diminuirmos o imposto do modem, não tem banda larga. Por isso foi absolutamente importante envolver as empresas de telecomunicação. Quando lhes pedimos que dissessem qual contribuição poderiam dar ao plano nacional de banda larga, entre a série de sugestões e observações feitas, uma delas é essa: baratear o modem que atualmente custa R$ 200. Como se vai popularizar a banda larga no Brasil se o modem custa R$ 200? Desse valor, 76% é imposto. Se o imposto cair, ele passa a custar R$ 130. Já melhorou. Se a conta é em alta escala, 20 milhões de pessoas, então cai mais ainda, para R$ 80. É assim que funciona. Olha o que aconteceu com o conversor da TV digital. Foi lançado há dois anos a R$ 1.600. Hoje, vale R$ 250. E até o ano que vem pode custar R$ 150.

E quanto às críticas da oposição, de que o governo estaria fazendo uso eleitoral do Bolsa Celular?
A eleição é no ano que vem, ainda falta um ano. Ninguém sabe direito ainda quem são os candidatos. Será que programas sociais implantados um ano antes têm tanto poder de influência do eleitor assim? O brasileiro já sabe o que vai acontecer no ano que vem. O Bolsa Celular não é um investimento do governo. É um investimento das próprias empresas em parceria com o governo. O governo contribuiria deixando de cobrar um tributo, porque queremos que o telefone chegue às classes mais pobres, àqueles que não têm telefone e não vão ter num futuro próximo porque a renda deles não permite. Temos que chegar a quem não tem telefone. Estamos propondo: a empresa dá o telefone, dá um crédito de R$ 5 a R$ 7 por mês neste telefone e o governo não cobraria a taxa de habilitação de R$ 25 e a taxa anual de R$ 13. Com isso, o telefone chega a mais 13 milhões de famílias, principalmente as que estão cadastradas no Bolsa Família. (IG/UltimoSegundo)

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