Hipótese gaia

Publicado em: 09/10/2011

Sou um entusiasta da ficção científica! Desde criança, o imaginário futurista dos autores desse gênero literário me fascina. As versões cinematográficas, embora nem sempre bem sucedidas, também acompanham essa predileção. A claridade asséptica dos ambientes cibernéticos contrasta com a desolação devastadora das paisagens pós-apocalípticas; o uso intenso da tecnologia se alterna com uma intensa busca da espiritualidade, e o ser humano, que já era pequeno diante de seu planeta, sente-se ainda menor perante a imensidão do universo.

Talvez por sintetizar um pouco de tudo isso, o filme Final Fantasy (Final Fantasy: The Spirits Within, EUA, 2001), apesar de não ser nenhum clássico, exerce certo fascínio sobre mim. Por conta disso já o vi várias vezes.

Foi na quarta vez, no entanto, que tive a oportunidade de aprender algo novo, ao menos para mim:

Meu filho, Guilherme, então com dez anos, ainda não havia visto o filme e o acompanhava, como sempre, com muita atenção. Imaginei que a abordagem filosófica do filme, com seus espectros, imagens surrealistas e teorias telúricas, fosse um pouco complexa para ele. Puxei conversa sobre isso e, para minha surpresa, ele afirmou, com naturalidade, que já conhecia a Hipótese Gaia mencionada pelos cientistas do filme! Não satisfeito, foi buscar seu livro de ciências e apresentou-me o cientista britânico, Sir James Lovelock, e sua teoria formulada na década de 1960. Continuo a aprender com o meu guri…

A idéia de que a Terra seja um organismo vivo, sensível e inteligente, em verdade, não é nova: o próprio nome Gaia vem da mitologia grega, no “capítulo”: origem da Terra. “Gaea” era o nome atribuído a Terra, e seu surgimento das sombras do nada inicial é descrito como a dança de um redemoinho, que se consolida e evolui como planeta.

Descrições análogas são encontradas nas mitologias de várias civilizações e o próprio Livro do Gênese retrata a criação do mundo e do próprio ser humano de forma semelhante: formado do mesmo “barro” da Terra e animado com um “sopro” divino.

Se os átomos formam as moléculas, que constituem as células: base do organismo humano, feito à imagem e semelhança de Deus, não há incoerência em considerar que também somos partes do tecido orgânico de nosso planeta.

O mesmo raciocínio vale para a Terra, em relação ao sistema solar; para este, em relação à Via Láctea; e para esta, em relação ao universo. Somos todos parte dessa incomensurável “multiplicação celular”!

 Mas, ao ver aquele filme futurista e compará-lo com o presente veio à mente a dúvida: somos células sãs ou cancerosas nesse organismo? Pior: será que somos vírus?

Enquanto os povos eram nômades e dispersos, não éramos risco ao equilíbrio do meio ambiente: a fauna e a flora se reciclavam. O surgimento das aglomerações urbanas representou o início de problemas, posteriormente agravados pelo extrativismo desenfreado, vegetal e mineral, e pela crescente industrialização. Ainda não conseguimos equacioná-los, quanto mais solucioná-los!

O resultado é que continuamos caminhando a passos largos e rápidos para uma situação já imaginada pelos ficcionistas científicos e futurólogos: o colapso ambiental!

A preocupação dos cientistas e ambientalistas já identificou origens e soluções, mas a visão de curto prazo de nossos governantes e a ganância de empresários insiste em postergar as providências que evitariam esse epílogo, ignorando que essa contagem regressiva não se faz mais em séculos, mas em décadas ou anos.

 Os sinais são claros: extinção de espécies, exaustão de recursos minerais, desertificação, distúrbios climáticos… Todos são como tumores que caminham rapidamente para a metástase e a falência do “organismo”.

A humanidade aprendeu a superar os obstáculos da natureza, mas ainda não conseguiu conter seu próprio instinto selvagem. Sofre as consequências de seus atos, mas não aprende com seus erros! Testa limites onde não deveria fazê-lo. Finge que não vê ou que não é responsável pelos resultados. Mas a responsabilidade é de todos e ninguém está imune às sequelas!

 Fanáticos, alarmistas e mistificadores vibram com isso, pois este terreno progressivamente árido e doente é fértil aos seus nem sempre explícitos propósitos. Mas, se devemos zelar pela alma, também precisamos zelar pelo corpo. Para tanto: espírito e corpo, ser humano e Terra, o universo e Deus devem estar em comunhão e equilíbrio, perfeito e natural. E num organismo saudável os tecidos tendem a regenerar-se mais rapidamente!

Controlar a poluição ambiental, racionalizar, pesquisar e diversificar formas de produção sustentada de energia e alimentos são necessidades reais e imediatas, muito mais prementes e indispensáveis do que os lucros fáceis e abundantes dos mercados de supérfluos e conflitos bélicos forjados.

Talvez alguns digam que todo esse cuidado humano pode de nada adiantar se um meteoro atingir nosso planeta, ou se o vulcão de Yellowstone explodir, ou porque o calendário maia não passa de 2012…

Essas são outras hipóteses.

Pobre Gaia? Não!

Se a Terra é um organismo vivo, nada a impede, como no poema de Drummond, de encontrar uma pedra no caminho. Além disso, qualquer volta ao pó, seja terrena ou cósmica, será o proverbial retorno do corpo à matéria e do espírito à essência de Deus. Qualquer que seja o futuro que nos aguarda, o importante é sabermos cuidar bem desses dois templos de Deus: nosso corpo e a Terra, enquanto habitarmos neles.

 O que está fora de nossas mãos ocorrerá de uma forma ou de outra.

Enquanto isso, o mínimo que podemos fazer por nossos descendentes é não negar-lhes um futuro!

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