História

Publicado em: 06/02/2010

Na Rádio Araranguá, por volta de 1956 ou 1957, aos 12 para 13 anos, Nelson Almeida resolveu me deixar falar ao microfone, para algumas apresentações de anúncios musicais. Fiquei entusiasmado, mal sabendo que Nelson vivia uma de suas agruras – a de não ter locutores para alguns horários indesejados. Amigo de Aryovaldo e Agilmar, meus manos que com ele trabalharam em Laguna, na Rádio Difusora (“Mais alto, mais longe”), Nelson viu em mim algum potencial ainda escondido (e põe escondido nisso…).

Minha voz era esganiçada, infantil demais. Todos criticavam, menos o Nelson. Um dia, o Nelson vendeu a emissora e foi embora. Assumiu outro gerente, cujo nome não lembro, e me tirou da “locução”. Colocou-me como “controle de som”. Atendendo a uma índole que sempre me acompanhou, desgostei-me do “rebaixamento” e o mandei às favas, catar cavacos. Ele estava certo, se pensou profissionalmente. Mas eu achei que estava errado e fim de linha. Os incomodados que se mudem? Mudei-me.

Na época, Nelson Almeida abriu espaço também para João Carlos Bittencourt, jovem como eu e com um vozeirão já invejável, boa leitura e excelente inflexão. O Abi Bittencourt, seu tio, radialista bissexto, o colocou ali e vivia comentando com o Waldemar Pacheco, meu sobrinho e também das lides radiofônicas naqueles tempos: “Meu sobrinho parece o Heron Domingues (apresentador do famoso e inesquecível Repórter Esso, a “testemunha ocular da História”)”.

Não é vergonhoso confessar que me roia um pouquinho de inveja essa atenção do Abi. Hoje tida e havida, aquela “envídia siempre rebelde”, como um arroubo negativo da infância quase puberdade. No entanto, João Carlos foi um dos meus amigos de infância. Muitos anos depois, nos reencontramos em Florianópolis. Ele, jornalista já consagrado, e eu chegando à Capital. Não soube mais do João Carlos desde que saí de Florianópolis, em 1992.

Ele deixou Araranguá bem antes de mim. E chegou a Florianópolis também muito antes.

Embora tenha tido meus principais momentos profissionais iniciantes em Criciúma, na Rádio Eldorado, Rádio Difusora (nos seus primeiros momentos, em 1962) e na TV Eldorado, a gratidão que nutro pela Rádio Araranguá é especial não só pela experiência pioneira – mas porque, até hoje, a emissora, através de todas as suas direções, com destaque especial para a atual, comandada pelo seu proprietário, o competentíssimo Evaldo Stopassoli, jamais renegou nem deixou em branco todos os registros históricos de nossa passagem por lá (Agilmar, César e eu). O site da emissora tem esses registros mantidos permanentemente. Nas emissoras de Criciúma somos, até hoje, olimpicamente ignorados. Isto é ainda mais sensível quando se recorda que César e Aryovaldo foram os primeiros jornalistas a atuar na emissora e criadores de programas jornalísticos fantásticos, lá nos idos de 1949, 1950, 1951.

Perguntarão se isto é mágoa. Direi que é. Mas não a mágoa maldosa, deletéria, corrosiva, pecadora. É a mágoa da lamentação pela inépcia histórica, só isso. Nada mais. Que causa mais danos a quem deliberadamente esquece-se do que a quem é esquecido. Eles sempre babarão de prazer em nos esquecer. E nós babaremos de satisfação em termos vencido sem eles.

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