Hoje tem Festa n’ Aldeia

Publicado em: 06/05/2012

Praça XV, Florianópolis. Foto: Carolina de Assis

O ônibus demora e chega lotado. Ainda assim, aos sábados o TICEN é um pouco mais tranquilo porque muita gente tira a manhã pra dormir até mais tarde. Corto caminho por dentro do Mercado Público. Cheiro bom de fruta misturado com cheiro forte de peixe – maresia – e ureia, cheiro ruim dos homens. O Beto – aquilo é um artista! – conseguiu convencer todo mundo de que aquele cheiro ruim (tem quem chame de catinga, mas eu acho um nome muito feio, se bem que combina), é um “odor característico” e que confere um ar peculiar ao lugar. Vou andando entre as gentes e as bancas de fruta e peixe e, à mistura de cheiros, soma-se o alvoroço de sons – Olha a corvina e a cocoroca aqui ô freguesa! – O deputado fulano de tal empregou a familhada toda na Assembleia, uma poca vergonha!, – Fiz um crédito consignado pra compra um carro, agora vô tê que vendê o carro pra pagá o banco!

– Tia, compra uma bala pra me ajuda? Tô com fome!, – Encontrei co’a Celina, a mulhé tá que tá lustrosa! – Sandalhinha da Sandy-Junior barato é aqui ó! Entro na igreja de São Francisco com o coração oprimido pelo assédio dos pobres que têm ponto de esmola na frente da igreja. Passo direto, sem coragem de olhá-los nos olhos, faço com a cabeça que não, faço que pego água benta – tá sempre vazio – só pra não me benzê no seco e ajoelho no altar de Santo Antônio de Catejeró, santo poderoso que já me concedeu muitas graças. Nem é preciso fazer força pra rezar. Pelo menos enquanto a dona Lilita, nascida Floripes há oitenta e tantos anos, continuar cantando com aquela voz doce e celestial. Basta ficar ali, quieto, só ouvindo. A alma da gente se eleva sem precisão de Pai Nosso nem Crei’m Deus Pai. Saio e volto ao meu velho dilema de consciência: as esmolas.

Sigo pela Felipe Schimdt e, súbito, esqueço todas as angústias. Tem gente por todo lado, música, teatro, palhaços, estátuas vivas, rodas de capoeira. Minha alma fica leve. Sigo em frente e vou encontrando velhos e novos amigos. A maioria reclama da vida, a conversa é apressada, normalmente atropelada, a gente pergunta, sem ouvir direito a resposta, pela família, sobre o trabalho, sobre os amigos comuns. Ao final diz: – Vamo marcá? – Vamo! E sai sem dar o telefone nem o endereço. Tem amizades que são assim. A gente vive longe, mas se gosta.

Acabaram com o Ponto Chic. Reformaram tudo, pintaram, botaram umas mesinhas na calçada, encheram de fotografia do antigo Ponto Chic, ficou um brinco. Só não é mais o Ponto Chic! Sou despertada de minhas elucubrações por um som de flauta: tantan, tantan, tantan, tantan. Tantan, tantan, tantan, tantan! São os acordes sensuais de Carmem, a passional cigana de Bizet. Vontade doida de botar uma flor vermelha no cabelo, uma mão na cintura, a outra segurando o rodado da saia, e sair dançando. Mudo a cadência do andar. Tantan, tantan, tantan, tantan… – Dólar, câmbio!

Vou direto até a Praça XV onde sou abordada por uma cigana, coincidências não existem, que insiste em ler a minha mão segurando-a com força para eu não escapar. Digo que não, de jeito nenhum, minto que não tenho dinheiro, ela diz que vai ler de graça porque eu sou uma mulher muito bonita e que meus olhos são lindos. Ah o poder das palavras! Num instante, lá estou eu sendo levada, docilmente, até uma velha cigana que fica sentada no chão, num canteiro de flores, o que, por si, compõe um quadro belíssimo. A cigana lê tudo de bom na minha mão enquanto a outra sai para agenciar mais um consulente. Ao final, como era de se esperar, pediu-me uma cédula para benzer: – Pra dar sorte, ela disse. Saí do surto. Esse golpe é velho, eu vi no Fantástico!

Livre da cigana, sigo para o meu derradeiro destino, a Livraria. Lá me sinto em casa. Sou recebida com abraços, sou cliente antiga, seleciono alguns livros, subo até o Café – uma água com gás, um carioquinha com leite, mais café do que leite, pouco açúcar. Enquanto folheio os livros saboreio reverente o meu café. O lugar é cheio de história. Ali se encontram as pessoas que amam os livros, gostam de café e de música. Assim fica fácil fazer amigos, porque a gente já começa com afinidade e cheio de assunto e é comum uma pessoa desconhecida levantar da sua mesa, pedir licença para espiar os livros da outra, interessado no assunto e, às vezes, na pessoa. Com a alma satisfeita, volto pra casa.

No caminho passo novamente pelo Mercado, agora entrando pelo vão central, onde num extremo rola a alegria – Deixa a vida me levar, vida leva eu…, no outro um homem canta a história triste de um amor descornado, música de bordel – Negue, seu amor e seu carinho, diga que você já me esqueceu… E, bem no meio, como um Moisés a separar aquele mar de gente, a Bíblia apertada no peito, um homem moreno, cabelo cortado rente, a barba feita, a camisa muito branca, engomada, abotoada até o colarinho, brada aos pecadores que aquilo é a voz de Lúcifer, desviando os homens dos caminhos do Senhor. Senti vontade de tirá-lo pra dançar, coitado!

Na mesa ao lado, um homem transgride, despreocupadamente, o nono mandamento lançando um olhar de peixe morto para a mulher do próximo, já que o próximo levantou para comprar cigarros. Bem se diz que fumar faz mal. Eita vida boa!

(Pra ficar perfeita só falta uma bala Rocôco ou um sorvete do Satélite!).

* Do livro A Minha Aldeia. Florianópolis, Papa-Livro. 2004.

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