Humildade segundo as pequenas flores

Publicado em: 20/08/2014

Para Lai Lai, flor de pessoa

A quase todos encanta a exuberância das flores no jardim. E alegra e seduz a boniteza das flores nos buquês e ramalhetes. Porém, o que me comove mesmo é a exuberância dessas florezinhas cuja beleza se oferece em meio a um capinzal, entre pedras na beira das estradas de terra, no vão dos muros que cercam terrenos muitas vezes abandonados, entre as lajes do calçamento das cidades antigas.

Mesmo nas grandes florestas, lá estão essas pequenas flores ofertando, humildes, o que têm de melhor: cores alegres, pétalas delicadas, perfumes discretos.

É comovente essa humildade das florezinhas, como a nos lembrar que o mínimo pode ser o máximo, o minúsculo pode se apresentar como imenso, desde que nossos olhos e corações estejam bem abertos diante da simplicidade.

Não sei se já repararam numa coisa que me impressiona: colhidas, essas florezinhas geralmente resistem muito pouco.

Enquanto as flores cultivadas às vezes resistem dias e dias, essas pequenas flores fenecem logo. É como se nos dirigissem outra mensagem de humildade, dizendo que a impermanência existe na essência de todas as existências, e que não adianta tentarmos sonhar com a perenidade.

Lindo é ver um muro velho, uma cerca com estacas tortas e arames enferrujados, receberem o abraço comovente de uma braçada de pequeninas flores, num contraste que parece traduzir o carinho do novo pelo velho. Ah, se nós, humanos, tivéssemos essa sensibilidade das florezinhas em relação aos nossos velhinhos e velhinhas…

Mesmo quando se despetalam, essas florezinhas o fazem com humildade, como que se desculpando por nos deixarem neste mundo tão descolorido, onde plantamos mais espinhos que flores. As pétalas das florezinhas simplesmente embarcam numa rajada cúmplice de vento e voam, voam, sumindo na distância. Aonde irão essas pequeninas flores?

Nas manhãs intensamente luminosas de sol, depois de uma pancada de chuva, engalanam-se. Parecem vestir-se de luz, num vestido bordado de gotículas d´água, como desejosas de participar da festa que a natureza oferece aos nossos corações em momentos assim.

Com frequência, essas florezinhas nascem juntas, irmanadas, como de mãos dadas para formar um tapete de trama colorida e perfumada que se estende por metros e metros ao longo do caminho.

Às vezes, no entanto, nos deparamos com uma única, uma solitária florzinha. E essa flor nos dá uma lição da beleza da solidão, mas de uma solidão alegre, como a nos dizer o quanto é importante, muitas vezes, nos isolarmos e mergulharmos lá no fundo de nossa alma, onde medram nossas flores de desilusão, de tristeza, de saudade, de dúvida, de covardia. E aprendemos, com essa humilde flor, que também podemos plantar no jardim de nosso espírito as flores da confiança, da alegria, da reconciliação, da coragem, da felicidade.

Benditas sejam essas florezinhas graciosas! Que sua beleza continue alegrando nossa vida. Que seu perfume continue nos inebriando. E, sobretudo, que sua humildade nos contagie.

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