Incrível, fantástico, extraordinário!

Publicado em: 07/09/2005

Quando me lembro desse título de programa me dá até urticária. O João Machado (que o sol ainda cobre, felizmente), hoje aposentado do Grupo Zanette, é quase da minha idade. Não tão largado, mas era um baita gozador.Seu pai foi criado pelo meu avô, desde que o velho deixou Palhoça, rumo ao Araranguá. Era intenção do velhinho Bernardino registrar o pai do João, Manoel, juntamente com o irmão gêmeo deste, de nome José, com o sobrenome Machado. Eram dois órfãos de pai e mãe.

Mas o velho fundador de Palhoça  (e primeiro prefeito daquela cidade), Bernardino, foi embora pra sempre antes de concretizar seu objetivo. Meu pai, ao invés de irmão de ambos, passou a ser pai, já que a ele coube, então, reconhecê-los como filhos: José e Manoel Machado.

Dona Ziza era a mãe de João que, no final dessa fritada toda, acabou virando meu sobrinho. Seu pai morava numa das casas da Estrada de Ferro Tereza Cristina. Não tinha casa nenhuma no mundo mais vizinha dos defuntos (futuros colegas de todos vocês), pois ficava de fundos diretamente para o muro do cemitério municipal. As agourentas corujas faziam coro à noite em velhas figueiras cheias de mistério.

Mas a teimosia de guri e a curiosidade em ouvir o programa de Thalma de Oliveira, “Incrível. Fantástico, Extraordinário”, superava o nosso enorme “respeito” pelos mortos tão próximos…

Um prefixo, de arrepiar muçum, chegava a fazer eco à meia-noite, ali bem no centro do dial, nos 1.000 kilociclos da Rádio Record, de São Paulo. E uma voz cavernosa anunciava  pausadamente… “se você tem nervos fracos… se é impressionável… NÃO OUÇA ESTE PROGRAMA, porque está começando… INCRÍVEL, FANTÁSTICO, EXTRAORDINÁRIO! E aí puxavam almas penadas que parece que  vinham zunindo e gemendo aos nossos ouvidos. Nossos olhos chegavam a lacrimejar, sem choro. Um arrepio passava pelo corpo quando gemidos cavernosos ecoavam. O rádio parecia um imenso paiol de cadáveres insepultos. Fazia jus ao nome, esse programa do Thalma de Oliveira.

Antes de terminar, quando já estávamos até engasgados de tanto comer amendoim torradinho, que dona Ziza fazia para a gurizada vender no cinema, lá vinha o terrível locutor novamente, que finalizava… “este programa deseja que você tenha UMA PÉSSIMA NOITE DE PESADELOS!”

Uma hora da madruga. Nas primeiras vezes tentei me encher de coragem para voltar à pensão onde vivia. Mas sair dali, atravessar o imenso parque de manobras fronteiro à estação e chegar até a rua iluminada era um desafio jamais superado.

“João – dizia eu – vamos até depois dos trilhos e de lá tu voltas…”

Primeira tentativa; nada feito. Chegando do outro lado do trilho era o João que não tinha coragem de retornar sozinho. Assim, algumas noites tentamos e, no final…, dona Ziza ganhou um medroso hóspede eventual das noites dos programas da Record…

Thalma de Oliveira – na minha opinião – foi o produtor que mais conseguiu impressionar aos chegados ouvintes de programas de almas penadas, que já conheci…


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