Ipanema FM: uma rádio diferente

Publicado em: 17/07/2006

Tarde de domingo, sol forte sobre o Parque Marinha de Brasil, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, dezembro de 1985. Show de final de ano da Rede Brasil Sul de Comunicação. Pelo palco, desfilam as promessas e as certezas da MPG, sigla que serve de nome ao programa especial de final de ano a ser apresentado às 12h, dia de Natal, na RBS TV. Por Luiz Artur Ferraretto

O que a edição dos competentes produtores da principal empresa de comunicação do Sul do país não vai mostrar é, justamente, o apoio a uma emissora que começa a se firmar como uma alternativa em meio ao mercado extremamente comercial de freqüência modulada em fase de consolidação no Rio Grande do Sul. Eu estava lá e sei disto. Éramos um, dois, três, de repente, uma dezena ou uma centena. Embora os alto-falantes insistissem com slogans da Atlântida FM, carro-chefe da RBS, gritávamos – sóbrios ou bêbados, em nossos 16 ou 17 anos – como a desafiar o principal complexo de mídia do estado, como a desafiar os esquemas das poderosas gravadoras multinacionais ou não:
– I-PA-NE-MA! I-PA-NE-MA! I-PA-NE-MA! I-PA-NE-MA! I-PA-NE-MA!!!
Pelo menos, foi assim até o show começar. Depois, era mesmo hora de ouvir. E a maioria dos novos nomes da música urbana e contemporânea, roqueira ou não, tocava mais na Ipanema FM, da Rede Bandeirantes, não na Atlântida, que tentava correr atrás e já incluía alguns dos novos nomes do rock gaúcho e brasileiro.


Da esquerda para a direita, Wlamir Costa, responsável pela área comercial; Mauro Borba;
Beth Portugal, redatora e locutora dos toques informativos; as secretárias da rádio; e Nilton Fernando Pereira, na bicicleta dos Correios e Telégrafos.

Idéia do radialista Nilton Fernando Pereira, a Ipanema começou a operar cinco anos antes, com outro nome, outro prefixo e com uma programação diferente de tudo que se conhecia no rádio musical jovem à época em Porto Alegre. Nos 99,3 MHz da Bandeirantes FM, com seus estúdios na avenida José Bonifácio, era a primeira incursão do grupo paulista controlado pela família Saad no mercado do Rio Grande do Sul. A localização do sobrado, em frente à Redenção – forma como o porto-alegrense chama o Parque Farroupilha –, vai facilitar, como recorda Mauro Borba, seu segundo comunicador, a inserção da nova rádio no cenário cultural de Porto Alegre:
– Começamos a rodar as fitas das bandas e dos artistas de Porto Alegre na programação e essa foi a primeira marca registrada da Bandeirantes. A rádio começava a ser um ponto de referência para a cultura porto-alegrense. No teatro, o grupo Vende-se Sonhos encenava School’s out. Sessões especiais no Clube de Cultura apresentavam o filme Deu pra ti anos 70. Dois bares inauguravam no Bom Fim [bairro próximo ao então estúdio da emissora]. O Escaler e o Ocidente. Assim começava a década de 80. Tudo isso passava pela Bandeirantes FM, que estava ali, no centro do bairro, onde as coisas aconteciam, e, apesar do nome paulista, era a rádio mais porto-alegrense da cidade.
A rádio mais porto-alegrense da cidade tem, portanto, muito do trabalho de Nilton Fernando Pereira, gaúcho com passagem pela Bandeirantes FM, de São Paulo, “rádio estilo poncho e conga, meio bicho grilo”, como ele define a emissora, que influencia na montagem da estação do grupo paulista no Rio Grande do Sul. Ainda na fase de planejamento, sob diretriz semelhante, ele define uma comunicação conversada, sem atropelos, dando tempo ao ouvinte para pensar no que está sendo dito. Junto com músicas de diversos estilos e ritmos, mas agrupadas, quase sempre, em blocos de três e guardando alguma identidade entre cada uma delas, a fala quase intimista confere, na gíria já um pouco defasada para a primeira metade da década, um ar meio bicho-grilo à emissora, que se integra à cena cultural mais alternativa de Porto Alegre. Na época, Nilton define assim o público pretendido, aquele que, logo em seguida, não parava de gritar “Ipanema, Ipanema, Ipanema!”:
– São jovens universitários que estão dispostos a ouvir rock, jazz, samba, chorinho, latinidades e até música local. Se o Ministério das Comunicações estabelece uma porcentagem mínima de 60% para a programação de música brasileira, a FM Bandeirantes vai de 75%, sendo que 25% são músicas locais (urbanas e folclóricas). Os programas específicos são fundamentados na informação cultural (cinema, teatro, história do rock, tradição gaúcha, esporte).


Ao fundo, Mary Mezzari e Mauro Borba, com Nilton Fernando em primeiro plano.

Os apresentadores (alguns) têm nome. A notícia é comunicada pelos próprios redatores, o que lhes dá propriedade sobre o que lêem, muito embora não tenham qualquer preparo para isso.
De início, a apresentação é toda gravada pelo próprio Nilton Fernando, com Mauro Borba fazendo a programação musical e, em seguida, apresentando o programa Noite Alta, nas quartas e sábados, às 20h, onde são presenças freqüentes cantores e compositores da cidade – Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Nei Lisboa… –, além de grupos como Cheiro de Vida, Quintal de Clorofila e Raiz de Pedra. Nas canções e nas entrevistas que vão sendo veiculadas, o ouvinte toma contato com a nova música urbana do Rio Grande do Sul. E o velho sobrado da José Bonifácio torna-se, assim, um ponto de referência cultural para um tipo de sonoridade ausente nas outras estações.
Em 1983, os tempos quase lúdicos da José Bonifácio vão dar lugar, no entanto, às imposições do mercado. A rádio transfere-se para as instalações do morro Santo Antônio, onde funcionam as emissoras recém-adquiridas à Ordem dos Capuchinhos. Mesmo com uma programação de prestígio, a Bandeirantes FM apresenta um faturamento abaixo do esperado pelo grupo paulista, que, já controlando a Difusora AM e a FM, decide alterar a configuração das suas operações em Porto Alegre.
Em uma reunião na capital gaúcha, Johnny Saad, um dos executivos da empresa, determina a transferência do conteúdo menos comercial dos 99,3 MHz para os 94,9 MHz, então ocupados pela Difusora, especializada em música brasileira. Nos planos da rede, a nova Bandeirantes FM, com melhores equipamentos e mais potência, ganharia competitividade em um processo reforçado por uma programação voltada a um público abrangente. Nilton Fernando sugere rebatizar a antiga Difusora FM como Quintana FM, em homenagem ao poeta Mário Quintana, na convicção de que, desde 1980, a estação havia conseguido forjar um forte laço com a cidade. A direção do grupo, no entanto, impõe o nome Ipanema, da praia da Zona Sul de Porto Alegre, para aproveitar a semelhança de sonoridade com a Itapema FM, de forte presença na mídia por estar sendo lançada pela RBS quase na mesma época. A denominação é rejeitada pelos próprios comunicadores da rádio que, de início, evitam identificar a emissora no ar.
Com o tempo, a Ipanema FM firma-se como uma estação de faturamento médio, mas de público extremamente fiel. Exemplos desta fidelidade são – Você já sabe! – os shows de bandas nacionais, no auge do rock brasileiro dos anos 80, organizados pelas rádios concorrentes. E vale um exemplo sempre lembrado por Mauro Borba. O ano é o mesmo: 1985. Com a estação do grupo paulista em terceiro lugar na audiência geral de Porto Alegre, a Atlântida FM promove uma apresentação do Paralamas do Sucesso no Gigantinho, o ginásio do Sport Club Internacional. Para surpresa dos organizadores, o vocalista da banda, Herbert Vianna, agradece à Ipanema por ter tocado as músicas do grupo pela primeira vez no Rio Grande do Sul e é aplaudido pelo público. Pelo visto,quem gritava “Ipanema, Ipanema, Ipanema!” não estava mesmo mal-acompanhado.


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