Irê Silva, o anarquista dos Araçás

Publicado em: 23/07/2013

– Arô! Bons dias!

Com este inusitado cumprimento, sua marca registrada, que também serve como boa tarde e boa noite, o bancário, músico, micreiro e anarquista assumido, Irê Silva saúda os amigos em seu refúgio na Ponta dos Araçás. Apaixonado pela Lagoa da Conceição, desde que conheceu aos cinco anos, estimulado pelo avô,

Nestor Costa, tocador de tuba da Banda Amor à Arte, há 20 anos decidiu subir o morro das Sete Voltas pra ficar em definitivo. Era o início de uma mudança radical de comportamento, ao decretar o fim de um casamento de cinco anos. “Foi quando comecei a ver a vida com outros olhos, a exercer o anarquismo, esta é a maior virtude de um homem”.

Impossível imaginar que o anarquista dos Araçás, incorrigível festeiro, extremamente alegre, figurinha carimbada de intermináveis noitadas ilhoas, só foi ordenado padre porque seu pai, que era da Marinha e servia no Rio, retornou a Florianópolis com a família. Inconformada com a rebeldia do filho, que teimava em trocar os estudos pelo jogo de bola, dona Anésia, uma beata filha de Maria, recorreu ao cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, de quem era conhecida. O religioso convenceu o menino Iriê a ingressar no Seminário São José com a proposta de jogar futebol e estudar.

Foram sete anos de internato e uma sólida base cultural, consolidou o hábito da leitura e chegou a falar e escrever latim, grego e francês, com desenvoltura. “Foi uma fase boa para a minha formação. Cheguei a ter a firme intenção em ser padre. A vida era dura, porém gratificante. Levantava às 5 horas da manhã, era estudando, jogando bola, exercícios físicos, rezando, ouvindo música clássica, uma beleza”. No seminário descobriu a música, sonhava em tocar piano, mas o instrumento custava caro.

Para sua surpresa, certo dia recebeu a visita da mãe, extremamente cansada, com as mãos sangrando ao carregar um pesado acordeão por um longo caminho, para presentear o filho. Abraçado à mãe, e à sanfona, viveu momentos de emoção. “Aprendi teoria musical. O acordeão dá noção de harmonia à mão esquerda”. Mais tarde, morando em Sambaqui, deixou a sanfona de lado, desestimulado pela tia Lia, que insistia em dizer que gaita era coisa de matuto. Ela preferia Tonico e Tinoco tocando na radiola.

Viveu os melhores dias da sua infância no morro da Mariquinha, Largo 13 de Maio e em Sambaqui, onde morava a avó, em contato permanente com o mar, brincando na praia do Aldo Luz e jogando bola no Campo do Manejo. “Tive uma infância muito louca entre Florianópolis e o Rio de Janeiro. Foi uma infância com dificuldades, mas não conheci a miséria. Em Sambaqui eu gostava de brincar na chácara de mina avó sempre carregada de frutas, e no mar, pescando. O peixe era farto naquela época”.

Com o irmão Ib, coronel da Polícia Militar, atravessava o Capo do Manejo para comprar leite, quando foram ludibriados por um esperto malandro. “Eu levava a leiteira, e o Ib o dinheiro. O cara se apresentou e pediu pra levar a gana, justificando que o lugar por onde passávamos é perigoso, sendo prontamente atendido. Disse para ficaremos aguardando que iria enxotar uma vaca brava mais à frente. Até ontem, o sujeito não havia voltado”.

Inclui o BESC, empresa na qual trabalha há vinte anos no setor de informática, no rol de suas paixões. Após sugerir ao diretor Francisco Mastella, que o banco precisava a curto prazo ingressar na área da informática, seguido de um curso no Ciasc, tornou-se micreiro inveterado. “A informática é apaixonante. Costumo dizer aos amigos que o meu trabalho é um videogame. Permaneço o dia inteiro brincando com o computador, desenvolvendo sistemas para a empresa, seja no banco, seja em casa. Agora, com essa coisa de internet, o mundo não tem mais limites”.

Antes do Besc, Silva trabalhou na Caixa Econômica Estadual, com Jauro Dêntice Linhares e Valério Matos. “O Besc foi de extrema importância na minha vida. Está devidamente interligado às minhas outras paixões, como a mulher, a cerveja, o champagne, a informática e a música. Faço de tudo uma convivência com o mesmo nível de importância, sem desequilíbrio”.

Sósia perfeito do gaiteiro Sivuca e do folclórico blumenauense Horácio Braum e não menos boêmio, Irê Silva aprofunda-se quando contestam sua teoria de anarquista e cita alguns exemplos curiosos. “O Corpo humano é símbolo do anarquismo. Não tem chefe, ninguém manda, não tem regulamento e tudo funciona harmonicamente. Vejo da mesma forma o sistema solar.

O nosso universo tem lua, sol, planetas, não existe conhecimento entre eles, mas vivem em perfeito sincronismo. Observa-se também uma revoada de pombos, não tem torre de comando, mas exercem uma perfeita simetria. O dia em que o mundo funcionar anarquicamente estaremos próximos da perfeição. Tudo depende da consciência, de conhecimento, de cultura, não tem?”

Reconhece que a sua forma de viver, de agir, extrapola os padrões normais, sem estar preocupado com o que pensam a seu respeito. “Já trabalhei muito e nunca quis ser chefe para não dar exemplo. Sou mais pela tolerância, pela fraternidade, pela cultura da vida. Concessão eu faço, para quem eu gosto, para quem vale a pena, não por obrigação”, avisa.

Aos 50 anos, bem vividos, com certeza, duas filhas formadas e bem encaminhadas, ele não tem nenhum projeto que possa alterar a sua conduta de vida. Reconhece que tem dificuldades para viver a dois, assumir compromissos que privem a sua conquistada liberdade.

– Quero ter a liberdade de ir e vir e não ter ninguém a me esperar. Quero ter liberdade de fazer o que eu quero, detesto a obrigação.
O ermitão da Ponta dos Araçás tem a consciência de que não vive enclausurado e em constante meditação em seu refúgio. Precisa do silêncio para ler, escrever, ouvir música. Se tivesse que passar uma temporada numa ilha desertas exigiria requintes de uma antena parabólica, aparelho de tevê, videocassete e computador ligado à internet.

Presidente do Clube do Bolero, este manezinho assumido com direito à comenda, sempre demonstrando preocupação com a preservação da cultura local, acordeonista, pianista, cantador de terno-de-reis, enfim, respirando música por todos os poros, justifica que o aro – do “bons dias”, usado como cumprimento ao telefone – surgiu em forma de brincadeira com o amigo, Dario Pederneiras, e deve-se a uma homenagem ao pai dele, Haroldo Pederneiras, responsável pela construção da ponte Hercílio Luz.

– Antes eu usava Irê – ao atender o telefone – quando eu estava bem demais com a vida, e nem merecia tanto. Acredito que “bons dias” é o mais correto, uma forma de passar o meu entusiasmo para as pessoas.

Sempre à disposição para confortar os amigos nas horas difíceis, é também um ombro amigo e muro de lamentações para as moças desamparadas, e os desquitados, como ocorreu com Véve, seu parceiro de aventura de muitas luas que há muito coleciona histórias inusitadas vividas pelo anarquista.

Entre suas histórias hilariantes, porém reais, destaca-se quando Irê Silva teve o seu carro roubado, enquanto assistia a um jogo do Avaí, na Ressacada. Foi lamentar-se num dos bares da Lagoa e um amigo sugeriu que ele procurasse o rezador de responso, Mané Agostinho, na Barra, que certamente encontraria o automóvel.

Agostinho explicou que a imagem de Santo amaro, o seu santo milagreiro, estava emprestado e o reserva, que tinha em casa, não era muito poderoso. Mesmo assim prometeu “amarrar” o santo. Concentrou-se por minutos e informou que o veículo já havia atravessado a ponte, mas seria encontrado: “Quando o senhor achar o carro vorte aqui, pro mode eu não deixar o pobre santo “amarrado”. O automóvel foi encontrado, desmontado, numa oficina em São José.

A educação seminarista contribuiu para a formação de caráter dócil, às vezes excêntrico, Irê Silva. O introspectivo jovem casou com a primeira namorada que conheceu em sua formatura na Esag. Reconhece que cresceu imaturo, excessivamente educado, às vezes escrupuloso. Mudou radicalmente a partir do contato com o sexo feminino, passou a ver o mundo diferente e exercer o anarquismo.
– O anarquismo processa-se em várias etapas e vai se consolidar bem mais tarde.

Eu mesmo assumi a seguinte postura. Vou viver como se eu fosse perfeito. Faço de conta que sou perfeito, viver um pouco mais além da rotina do dia-a-dia. Foi um exercício metódico a partir em que acabou meu casamento.

Com a mudança de vida passou a descobrir o mundo, conhecer novos amigos e descobrir as mulheres, ressalta com veemência. “As grandes coisas da vida se aprende com as mulheres, temos que reconhecer. Antes, a minha convivência com a mulher era respeitosa, em função do contato diário com minha mãe, tias, professoras. Quando se descobre a mulher na sua essência é um outro estágio da vida, é o delírio do prazer. Não apenas o lance do corpo, mas também o da alma”.

Essencialmente sonhador, aproveita as noites enluaradas para tocar solitário o seu acordeão na beira da praia em Sambaqui. Mas seu destino era mesmo a Lagoa da Conceição. O deslumbramento com a descoberta da Lagoa, aos cinco anos continua presente. Começou um ciclo de festas intermináveis, inclusive na Joaquina e Barra.

Com a compra de um terreno e a construção de uma casa na Ponta dos Araçás, entregou-se as delícias da Lagoa para sempre. Um adepto da solidão, e isso explica seu estilo nômade, meio cigano, bruxo e ermitão. “Na minha solidão, faço o que bem entendo, posso deitar com meus livros e sonhar com as minhas músicas”.

A música está inserida em sua vida desde a época de internato. O anarquista dos Araçás acabou tornando-se um dos sustentáculos do Couro e Corda, grupo nativo especialista em difundir a obra do compositor Nelson Wagner. Ao ser procurado em seu refúgio, explicou ao grupo liderado por Leleco Lemos que tocava piano com três acordes por absoluta vadiagem, sem exercer nenhum compromisso. Ao obter como resposta, “é isso que nós queremos” e com o seu conhecimento de teoria musical, aceitou o convite para a realização de um trabalho que resultou na gravação de um CD.

Sobre a sua intimidade com o piano, tem um conceito muito pessoal. “Não há mulher que resista a um piano, as mulheres respiram fundo ao ouvir um piano. E, no final, o piano sempre acaba com a mocinha”. [Retratos à luz de pomboca. Aldírio Simões. Florianópolis: Edição do autor]

(Colaborou Giane Severo)

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