Janelas iluminadas

Publicado em: 04/09/2013

Na noite escura, observo as janelas iluminadas. Logo que anoitece são muitas. Mas vão virando poucas quando a madrugada avança.

De minha própria janela iluminada, olho a infinidade de janelas dos prédios vizinhos, que bisbilhoto até aonde a vista alcança. Mas, em lugar da curiosidade crua, contundente, objetivamente invasiva, move-me uma espécie de solidariedade com todos aqueles que mantêm iluminadas suas janelas, como faróis a guiar todos os que navegam no negrume da noite.

E, aos meus olhos, aplico a luneta sutil da imaginação, para ver que a gente enxerga melhor com os óculos postos no nariz do espírito que na ponta do nariz.

Ali, naquele nono andar, pode haver uma mulher idosa, envolta na antiguidade de seu xale e lembrando, lembrando? Ou será uma avó, sintonizada com os tempos modernos, preocupada com a neta que ainda não chegou da faculdade, tendo, para isso, que atravessar a densa floresta cheia de perigos nas trilhas das ruas e avenidas, nos cantos escuros das esquinas?

No quarto andar do prédio lá longe, aquela janela mostra a constância cruel da insônia. Basta anoitecer e já aparece acesa, para ficar até muito tarde. Nesse caso não imagino, vejo mesmo um velho magérrimo e fumante inveterado. Este é dos que, vez por outra, chegam à janela. Aparece e, rápido, desaparece, deixando em seu lugar a nuvem branca da fumaça, que contrasta com o negro da noite.

Terá sido, talvez, na vida, um executivo massacrado, cotidianamente, por sérios problemas e a necessidade de tomar cruéis decisões. Porém, tudo isso se foi, deixando só uma aposentadoria e pedaços de lembranças dos dias de poder – como os tocos de cigarro que lá estão em seu cinzeiro.

Em muitas janelas não vejo iluminação firme, amarela e uniforme, mas sim uma luz incerta, esbranquiçada e cambiante: são os reflexos da luz da TV. Estas luzes predominam, mostrando o quanto essa abertura eletrônica para o mundo se tornou companheira fiel das insônias…

Vários, aí, por detrás dessas janelas, estarão simplesmente passando seu tempo vendo filmes, séries ou outros tipos de programas televisivos, bons ou ruins; sua solidão estará acompanhada pelas peripécias de personagens, que lhes proporcionam a fuga salvadora, o escapismo oportuno.

Nesses plantões notívagos diante da televisão, muitos estarão assistindo aos telejornais, que infelizmente se transformaram no show das tragédias, distantes ou próximas, que acabam por produzir um prazer ou um vício, na morbidez de presenciar, no canto seguro do sofá da sala, as desgraças do mundo.

Tremo ao lembrar de que lá, naquela janela iluminada do prédio da esquerda, a vigília pode se dever a uma criança doente. Dói saber que esses serzinhos maravilhosos, esse presente que a vida nos oferece em sua renovação, também adoecem e sofrem. Às vezes, chego a ouvir – ou penso que ouço – uma tosse renitente ou um choro prolongado.

As janelas iluminadas, esses retângulos em luz, ao mesmo tempo em que abrigam histórias de gente que atravessa horas noturnas acordada, revelam vidas – nem que sejam vidas apenas imaginadas – para observadores atentos. E podemos acabar estabelecendo vínculos de solidariedade com cada um: os que trabalham na calada da noite, quando as distrações atrapalham menos e o trabalho rende mais; os que simplesmente se distraem, ou pelo menos tentam; os que se defrontam com seus demônios; os que atravessam sofrimentos físicos e morais; os que criam – escrevendo, pintando, compondo, fazendo poesia e outras tantas coisas, cercados pela noite.

Cada janela dessas é um farol, a indicar que existem muitos acordados, como eu, estabelecendo a possibilidade de que meu olhar navegue pelo mar da escuridão, mas tomando como referência e guia esses marcos de luz, onde há também outros navegantes.

Quem sabe se numa dessas janelas, agora, na mira de meu olhar, não haverá alguém escrevendo uma crônica como esta?

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