Jornalista / Escritor: A entrevista que eu gostaria de dar

Publicado em: 09/12/2010

Silveira Júnior

É uma pena (para mim) que os meus amigos da imprensa não tenham se lembrado de me entrevistar. Como eu gostaria de dar uma entrevista respondendo a uma lista de perguntas feitas por mim mesmo! Por exemplo: Reporter – O que é que você acha da eleição direta para presidente da República? SJ – Não acho nada. Rigorosamente nada. E quem pensar que a solução dos nossos problemas está nessa eleição direta vai acabar comendo lagartixa, como aquele cearense da reportagem. Eleição direta pelo voto universal é uma ficção política. O grande momento da escolha não é no dia da eleição, mas naquele em que se escolhe o candidato. E nesse dia o eleitor não é ouvido nem cheirado. No dia da escolha dos candidatos falam só os caciques, os índios são chamados depois de tudo pronto.

Repórter – Numa escala de valores de zero a dez, dê notas para: João Paulo II, João Figueiredo, Paulo Maluf, Leonel Brizola e Aureliano Chaves.

SJ – Para João Paulo II as minhas notas são duas: como patriota polonês, nota dez; para o pastor da cristandade, para o representante de Deus entre os homens, nota três. Entendo que esse papa manda os padres e bispos se absterem de política, mas ele mesmo a pratica em todos os seus atos. João Figueiredo é reconhecidamente uma estrela cadente. Não dá mais conta de dirigir o barco, vê a marinhagem fazendo complôs nos porões, mas não toma uma atitude contra. O que lhe vale é que dirige uma equipe financeira tão ruim que o povo fala dela e esquece do João. Nota quatro. Paulo Maluf é um somatório dos nossos defeitos: matreirice, bajulação, vaidade desmedida. Nota zero. Leonel Brizola. Como governador do estado do Rio de Janeiro, para mim uma revelação. Nota dez, menos quatro da Neuzinha, sobram seis. Aureliano Chaves. Como candidato a presidente da república não levaria o meu voto, embora houvesse dado boas contas de si nessa interinidade. Como bananeira-que-já-deu-cacho, nota cinco.

Repórter – Quem você proporia para o prêmio Nobel da Paz?

SJ – Proporia alguma organização que tratasse da planificação da família. A longo prazo, a paz só será alcançada quando cada casal tiver tantos filhos quantos puder sustentar e educar. Penso que nem homens, nem ratos, nem coelhos podem reproduzir-se pelo simples impulso da libido. Vejam o que está acontecendo nas zonas secas do nordeste: famílias comendo ratos e lagartixas, mas produzindo um novo filho a cada ano.

Repórter – Existe uma literatura catarinense?

SJ – existem catarinenses fazendo literatura, mas não sei até onde há uma literatura catarinense diferenciada das outras, como essa excepcional literatura baiana; a literatura mineira, a nordestina, a gaúcha… Nós temos grandes valores como Nereu Corrêa, Oldemar Menezes, Urda Klueger (essa moça vai longe), Osvaldo Ferreira de Melo (bissexto, mas de rara cultura), Flávio Cardozo, Salim Miguel, Lauro Junker, para falar dos vivos, porque entre os mortos temos grandes valores: Cruz e Sousa (estrela solitária), Tito Carvalho, Oton D’Eça, Virgílio Várzea. Temos outros bons escritores que não produzem literatura no sentido mais restrito: Walter Pizza, Paulo Lago, Evaldo Pauli, Celestino Sachet, Raulino Reitz… Entre os grandes mortos, ia me esquecendo de Osvaldo Cabral. Entre os poetas omiti Marcos Konder Reis. Traições da memória.

Repórter – Você disse num artigo, referindo-se às civilizações orientais, que a Índia tem muito pouca coisa a nos ensinar. Ainda vale?

SJ – Sem dúvida. A Índia é um país decadente, com um misticismo mórbido que faz com que muita gente por lá ainda renda culto a vacas e a macacos; é o país onde mais se morre de fome, com uma agricultura atrasadíssima, só sabem fazer filho. E isso, modéstia a parte nós também sabemos.

Repórter – Se você fosse convidado a opinar sobre os problemas do Nordeste que planos proporia?

SJ – Eu proporia a delimitação do Nordeste em áreas de desertificação progressiva. Naquelas áreas o governo estimularia a transferência dos seus habitantes para as zonas de regime pluviométrico normal. Eu acho uma impiedade manter aquela gente por anos a fio em cima de terrenos calcinados que não dão um pé de cebola e o governo mandando potes de [água em caminhões da SUDENE ou dando uma enxada para que o homem ganhe mil cruzeiros por mês, não para matar a fome da família, mas para a família de fome. Num país de oito e meio milhões de quilômetros quadrados não há nenhuma justificativa para se insistir em ocupar uma área árida, desértica, que apenas produz um ano em cada cinco. Quando produz.

Repórter – Em resumo: acabar com o Nordeste…

SJ – de jeito nenhum. Apenas desabitar as áreas de secas quase permanentes, na esperança de que elas se regenerem naturalmente e possam ser recuperadas quando escassearem as terras aráveis do próprio Nordeste. De uma coisa tenho certeza: enquanto perdurar a indústria da seca, o coronelismo, o patriarcalismo governamental, as promessas dos poços, açudes e perenização dos rios que nunca saem ds plantas, o Nordeste ficará cada vez mais pobre. E o reto do Brasil também.

Aliás, eu acho que o que é válido para o Nordeste, é válido também para o sul. Não adianta lutar contra as intempéries. Por exemplo: o que adiantará reconstruir casas e barracos nas margens do Itajaí, onde a água invade com um dia de chuva?

(Publicado em A Ponte – 1ª semana de setembro de 1983 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras, em 2010. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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