Jornalista / Escritor: Cinquenta anos de Jornalismo

Publicado em: 30/12/2010

Silveira Júnior

Neste ano de 1985 que se inicia, este vosso humilde colunista completa meio século de militância jornalística. Foi no recuado ano de 1935 que – pelas mãos do meu sempre generoso amigo Antônio de Pádua Pereira – consegui publicar modestíssimas colaborações no Diário da Tarde e em A Gazeta, de Florianópolis. Depois eu soube que as minhas colaborações o Antônio as entregava ao Jairo Callado, que certamente mais se interessava em atender ao pedido do amigo do que verdadeiramente deter-se em análise da minha insipiente produção jornalística. Já no Diário da Tarde a transa era outra: lá o Antônio dava aos meus pequenos trabalhos ao Pedro Cunha, maçom como ele, e assim vi em letras de forma pequenas notas que aos meus olhos pareciam verdadeiras obras primas.
Quando via na rua alguém com um número de jornal onde eu escrevera as primícias da minha iniciação jornalística, tinha ganas de gritar: “Olha, essa nota da página tal é da minha lavra…”.

Agora, trabalho assinado eu só teria em 1938, quando fui orador d turma de datilografia da Escola Pedro Bosco, que funcionava ali na antiga Rua 28 de Setembro (hoje Vidal Ramos), um pouquinho acima do Ceisa Center. O sempre fraterno Antoninho (Antônio de Pádua Pereira) me fizera orado. Ora, eu sempre fui um péssimo orador e posso imaginar como teria sido o meu discurso, mas o Batista Pereira, também maçom, gostou do meu trabalho e o publicou, sabe onde? No Diário Oficial do Estado, que ele dirigia. Foi a glória.

A verdade, porém, é que meus pendores jornalísticos começaram até antes de 1935. Já em 1934, ano em que me transferi para Florianópolis, conheci o Armando Machado, neto do grande herói da Guerra do Paraguai, Fernando Machado, que era meu vizinho (o Armando, não o herói…) e ambos fazíamos um jornalzinho escrito a mão que nós entregávamos de porta em porta para os moradores da Rua Vidal Ramos. Entregávamos o jornal hoje e no dia seguinte íamos apanhá-lo para dar a outro vizinho. Assim o único número que editávamos passava por muitas mãos. Esse meu saudoso amigo, muito mais bem dotado intelectualmente do que eu morreria muito jovem de tuberculose, que ele me garantia haver contraído por ficar o dia inteiro exposto ao vendo na cabeceira insular da ponte Hercílio Luz, cobrando o pedágio de veículos, que era sua função.

Em 1938, perdi talvez a única chance de me profissionalizar. Eu era redator e revisor do Diário da Tarde, e recebi na redação a visita de um casal de portugueses. Eles se identificaram como donos de um jornal carioca da colônia portuguesa chamado, creio eu, que A Notícia. E me perguntaram se eu me interessava em ir trabalhar nesse jornal. Eu lhe respondi que sim. Então combinamos que eu escreveria um artigo – teste – para que o português pudesse aquilatar as minhas aptidões. Eu publiquei um artigo que guardo até hoje na primeira página do Diário da Tarde, onde criticava a política energética do governo, perfurando dezenas de poços de petróleo enquanto deixava inexplorados os de Lobato. Dei ao artigo o título de “Energia dispersiva”.

No dia seguinte pedi ao garçom do Hotel La Porta que entregasse o jornal ao casal de portugueses e fiquei aguardando o veredito. Fui aprovado. Uma hora depois, os dois estavam novamente na redação do Diário da Tarde, com uma proposta concreta: pagariam 150 mil réis por mês, casa, comida e roupa lavada, mas eu teria que morar na casa deles.
 
Aquele detalhe da casa, comida e roupa lavada para morar na casa do patrão me desestimulou muito, embora ganhasse menos do que isso, e morasse na casa de meu irmão João. E recusei a proposta, não obstante a sincera insistência dos portugueses. E foi essa a minha única chance de me profissionalizar como jornalista.
 
1938… Jornal da Colônia portuguesa… A ditadura salazarista estava a caminho. Talvez houvesse me tornado fascista, defeito que nunca tive. Foi melhor assim.
 
Pergunte-me se tem valido a pena essa militância tão modesta na imprensa por meio século. E respondo afirmativamente. Aos que gostam de corrida, tem amiga de casa montada… Outros pintam; o meu amigo Ary Garcia criava galos ingleses; o Nelson Heusi tinha cavalos de corrida; falecido Juca Dutra, fotógrafo em Itajaí, tinha uma coleção de terras do mundo inteiro. Eram centenas de vidrinhos com barro de Jerusalém, de Acrópole, do Monte das Oliveiras, de Hiroxima, de Pistóia… E ele nunca saiu da sua cidade. Mas quando os amigos viajavam, ele pedia essas lembranças. Afinal, morreu moço e nunca soube onde sua viúva, dona Norica, guardou essas relíquias. O falecido Curru criava canários de briga… Por que então eu também não poderia ter o meu hobby? Por isso respondo a minha própria pergunta: valeu, sim.

Tenho vivido sempre em cidades pequenas onde a imprensa era pouco mais do que um trabalho amadorístico e artesanal. Faz pouco tempo que em Santa Catarina surgiram os diários engajados e profissionalizados. Mas aí eu já era muito velho, muito cheio de pitafes e baldas e nunca pude me acertar com nenhum deles.
 
Sobram-se os pequenos jornais, mais descompromissados, que me aceitam tal qual eu sou, editam o que escrevo, não me cortam nada, não maquiam o meu pensamento, não me pedem para falar ou para silenciar e isso me deixa muito à vontade. Quando um desses jornais fecha, eu passo para outro sempre me oferecendo, sempre dando de graça e pedindo desculpa por estar de costas. É esse o meu jornalismo de meio século.

Não me envergonho de nada que escrevi. Não me pesa a consciência de haver caluniado alguém, nem de haver elogiado ou difamado por dinheiro. Sou basicamente um patriota frustrado. Há cinquenta anos tento salvar o Brasil, que, de resto, nunca precisou da minha salvação.

Para subsistência minha e da família tenho outras atividades. Jornalismo eu faço à noite, aos domingos, aos sábados à tarde. Nas horas tiradas do meu repouso.
 
Falando sinceramente, não sei fazer jornalismo engajado, com hora certa, com espaço a preencher. Escrevo quando quero.
 
E se escrevo mais do que posso publicar, guardo um velho arcaz, de onde retiro coisas antigas que não têm mais nenhuma utilidade. Dali, jogo no lixo.
Tem valido a pena? Tem, sim. Fico pensando: se nesses cinquenta anos que escrevo por puro diletantismo estivesse criando canários, onde poria toda essa passarinhada?

(Publicado em Aponte – 1ª semana de janeiro de 1985 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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