Jornalista / Escritor: Julio Cortázar e eu

Publicado em: 15/12/2010

Silveira Júnior

Estou lendo em O Estado, de 13/02/84, uma crônica de Julio Cortázar, o grande escritor argentino recentemente falecido, escrita em julho do ano passado, e não posso deixar de assinalar as minhas semelhanças entre as reações do menino Cortázar e as minhas lembranças infantis. Mesmo que as palavras sejam diferentes, creio que os medos e as angústias que assinalaram as nossas vidas de meninos foram muito semelhantes. Vamos conferir. Conto com a compreensão e a boa vontade do leitor.   Diz Cortázar: “interrogar-me sobre o medo da minha infância é entrar num terreno vertiginoso e cruel que tentei em vão esquecer”. “A casa da minha infância estava cheia de sombras, ângulos, desníveis e sótãos e ao cair da noite as distâncias ficavam desmesuradas para aquele guri que devia ir ao banheiro atravessando pátios ou trazer o que lhe pediam de um cômodo distante. Eram sagas sangrentas de assassinos que circulavam nas sobremesas familiares, o subúrbio abundava de ladrões e vagabundos perigosos, mas tudo isso que aterrava compreensivelmente minha mãe iniciou sorrateiramente os meus medos”.

Digo eu: “A minha primeira infância foi toda ela povoada de temores: do inferno, da peste bubônica, dos morcegos vermelhos que mordiam o gado, da possibilidade de mamãe ir embora e nunca mais voltar; temia horrivelmente que num certo dia o sol não nascesse, que o céu ficasse vermelho como sangue, que Deus aparecesse entre as nuvens anunciando o fim do mundo, que a nossa casinha caísse com uma ventania mais forte…” (Memórias de um Menino Pobre, 4ª Ed. Editora Lunardelli, página 23).

Diz Cortázar: “Numa idade que não consigo fixar, a solidão e a escuridão desencadearam em mim temores jamais confessados; animalzinho literário, desde então o temor chegou a mim por intermédio de leituras e não das crônicas vivas, inserido nessas alturas o vórtice do pavor que foi sempre a manifestação do sobrenatural, do que não se pode tocar, nem ouvir, nem com os sentidos usuais”.

Digo eu: “Eu tive uma infância povoada de temores e angústias. Que medo que a malaria voltasse a me jogar na cama; que medo que o professor Cantalício me desse na cabeça com aquela régua de metro; que o padre viesse rezar na nossa capela e voltasse a falar no inferno; que medo do inferno que era de fogo com demônios que tinham setas na cauda”. (Memórias, idem, p.23).

Diz Cortázar: “Assim, desarmado, nunca pude procurar refúgio, confessando meus temores aos mais velhos que, em nome do bom senso, quase sempre os rechaçavam, alegando que é preciso ter hombridade e outras estupidezes. Desde muito pequeno, tive de aceitar a minha solidão nesse terreno ambíguo onde o medo e a atração mórbida compunham o meu mundo da noite”.

Digo eu: “Não guardo da minha infância lembrança de um momento de alegria pura e duradoura; a rigor, nunca fui um menino. Era, isso sim, uma criatura assustadiça, envergonhada, preocupada com desgraças imaginárias, com guerras, com a peste bubônica e com coisas de adulto”. (Memórias, idem, p. 24).

Diz Cortázar: “hoje consigo lembrar com segurança de uma coisa: a leitura clandestina, aos nove anos, de Edgard Allan Poe. Neles, o real e o fantástico (digamos, a Rua Morge e Berenice, o gato preto e Lady Madeline Usher. Fundiram-se num horror só, unívoco, que me deixou literalmente doente durante meses e do qual não consegui jamais me curar totalmente).

Digo eu: “Não sei até onde posso dar a tudo isso uma conotação com as histórias que ouvi dos contadores de casos, e, depois de sete anos, com as leituras de uma história bíblica ilustrada, mostrando as coisas do céu e do inferno”. (Memórias, idem, p. 24).

Diz Cortázar: “O folclore argentino fazia também das suas, através de tios e primas: o lobisomem, por exemplo, a possibilidade monstruosa de encontrar o licantropo cada vez que me mandavam pegar alguma coisa no jardim em noite de lua…”. “O medo era do outro, aquilo que a literatura anglo saxônica chama tão admiravelmente de The Thing, “a coisa”, aquilo que não tem imagem, nenhuma uma definição precisa…” “Contra isso não existe resposta possível, salvo correr, cumprir a tarefa a toda velocidade e voltar sem fôlego”.

Digo eu: “duas conversas principais ocupavam os homens de Rio Branco? Revoluções e aparições fantasmagóricas. E também eu não fiquei imune a esses assuntos”. (Idem, p. 124).

“Uma estranha luz apareceu sobre a galharia de um arbusto, exato na Volta do Zé Jacinto, onde aparecíamos lobisomens e as mulas sem-cabeça. Num impulso, misturado de medo e desespero, tomei uma decisão, que era a única plausível. Passei a Volta do Zé Jacinto em desabalada carreira, olhando para o lado contrário da aparição. Mas não pude me furtara uma breve espiada, para constatar que a estranha visão era uma caveira rindo pra mim. E venci o longo percurso dali até a minha casa numa velocidade que me tornou completamente mudo quando cheguei ao destino. Na medida em que fui me acalmando, consegui apenas dizer:

– Vi uma caveira na Volta do Zé Jacinto…  (Memórias, p.123).

Diz Cortázar: “Se o medo me encheu de infelicidade a infância, em troca multiplicou a possibilidade da minha imaginação e me levou a exorcizá-los através da palavra; contra o meu próprio medo, imaginei o medo para os outros, embora ainda me reste saber se os outros me agradeceram”.

Digo eu: “já adolescente, ao medo que não diminuira, eu adicionara uma grande vergonha de ter medo e então sofria duplamente, porque continuava tendo medo e me faltava coragem de procurar refúgio em casas estranhas. Não sei quando consegui dominar esses traumas. Nem sei se algum dia os dominarei totalmente”. (Memórias, p. 121).

Diz Cortázar: “minhas leituras, pouco controladas pelos adultos, eram dirigidas quase infalivelmente para as formas mais sutis do sobrenatural e do mórbido; era a literatura da catalepsia e do sonambulismo”.

Digo eu: “hoje sei que a Bíblia não deve ser entregue, sem maiores preparações, a qualquer adolescente, incapaz de um mínimo de interpretação ds suas múltiplas parábolas, e figurações semânticas”. (Idem, p. 121).

Podem crer que, em 1975, quando escrevi as Memórias de um menino Pobre e as editei pela Lunardelli, não havia sequer ouvido falar nesse argentino chamado Julio Cortázar.

Não sei se convenci o leitor de que, embora em outras palavras, são textos muito semelhantes, sempre dando ênfase aos temores da infância, às suas visões fantasmagóricas, atribuídas a leituras mal assimiladas: Cortázar, Edgard Allan Poe; eu, a uma história bíblica.

Pena que essa identidade infantil não houvesse continua pela vida a fora, havendo o mundo nos feito homens tão diferentes: Cortázar, um cronista e escritor brilhante, eu, um cronista e escritor medíocre.

(Publicado em Aponte – 1ª semana de março de 1984 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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