Krupskaya

Publicado em: 11/05/2005

Hoje vamos fazer uma aventura em alto mar. O emprego na rádio foi meu trampolim para a Inglaterra, onde eu pretendia estudar e viver na RADA, Royal Academy of Dramatic Art.
Por Aguinaldo José de Souza FilhoO frio e a neve de Estocolmo estavam começando a cançar, tanto mental como fisicamente – toda aquela roupa! Eu já havia passado as férias daquele ano em Londres e validara minha decisão. Em dezembro de 1966 embarquei no navio russo Krupskaya, na ocasião o mais economico. Saimos a noite e chegamos na manhã seguinte em Dover, com algum saculejo.

O “Sherlock Holmes” da alfândega inglesa descobriu minha intenção de trabalhar para estudar e, na falta de visto de trabalho, não me foi permitido desembarcar. Teria de continuar no navio que seguia para Le Havre, também no norte da França.

No fim da tarde daquela sexta-feira,  subiu a bordo um grupo de funcionários de uma firma inglesa que ia passar o fim de semana em Le Havre e voltar segunda de manhã em tempo para o trabalho. Com o sol se escondendo no horizonte, zarpamos. O ponto de encontro dos passageiros foi óbvio – o bar do navio, onde os ingleses passaram a noite se encharcando. Como estavamos num navio russo, achei que a melhor bebida seria vodka, certo? Sim, se tivesse o mínimo de qualidade! Mas nem por isso o alcool deixou de subir prá cabeça. No mesmo navio estava uma lourinha finlandesa, com um par de óculos de sol em formato de coração, como a “Lolita” do filme, que estava na mesma situação que eu, só que embarcara com passaporte expirado. Não demorou para que nos “achássemos”. Depois do jantar, a tripulação nos brindou com um lindo espetáculo de canto e dança. Parecia um navio fantasma – toda a tripulação estava no palco, inclusive o capitão.  Depois do espetáculo os ingleses voltaram para o ‘pub’ e “Lolita” e eu partimos para o deck superior, onde achamos um local bem confortável ao lado da chaminé do navio, bem quentinho… e escondidinho. Vários marujos passaram por perto procurando em vão a lourinha finlandesa. O navio jogou tanto naquelas águas agitadas que duas vezes caí do beliche. Finalmente chegamos a Le Havre. Na época não era preciso obter visto para brasileiro entrar na França. Desci a prancha com duas malas, um casaco de frio e uma maleta. “Lolita” ficou a bordo para a viagem de volta a Helsinki. Acenei com a cabeça e fui em busca de um taxi que me levasse à estação ferroviária. Queria ir para Paris.

Mal saí do barco e o chão começou a subir e a descer na minha frente. Caí de quatro!

A combinação de bebida alcoolica de má qualidade e o saculejo do navio no Canal da Mancha de alguma forma mexeram com os meus líquidos de equilíbrio. Foi um horror!

O peso da bagagem complicava a coisa. Sentado no taxi e depois no trem foi tranquilo. Chegar a estes dois meios de transporte foi uma tragédia. Foi assim que cheguei dois dias depois em Berna, depois de um dia em Paris. Talvez houvesse vaga na rádio Suiça. Não havia! Mas fiz um grande amigo, o J. Pedro Correa, que hoje vive em Curitiba. Dizem que há males que vem para o bem. Esse foi um deles. Uma amizade que dura até hoje! Ah, a tontura? levou duas semanas para passar. Nunca mais toquei em vodka. Eu disse ‘vodka’ e não alcool!
Nos vemos semana que vem.


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