Landell de Moura – Pioneiro na transmissão da fonia – 1

Publicado em: 22/12/2010

RádioDOC | Pesquisa
 
Na virada do século 19 para o século 20, cientistas e engenheiros tentavam desenvolver um equipamento que permitisse a transmissão e recepção de ondas eletromagnéticas capazes de transportar sinais de voz. As pesquisas foram impulsionadas pelo sucesso do inventor brasileiro Roberto Landell de Moura ao fazer experiência particular em 1900, em São Paulo, com aparelhos de sua invenção, transmitindo a fonia e sinais telegráficos sem fios, por ondas eletromagnéticas e luminosas e do  italiano Guglielmo Marconi ao realizar, em 1901, a primeira transmissão somente telegráfica, também sem fio, entre o Canadá e a Inglaterra. Marconi centrou suas experiências na telegrafia sem fio e só se ocupou com áudio, fonia, em 1914, quando realizou os primeiros experimentos de radiofonia, na cidade de Spézia.

Em 1907, o físico norte-americano Lee De Forest revolucionou os dispositivos construídos até então ao adicionar a uma ampola de gás um terceiro eletrodo, além do catodo e do anodo. Após alguns aperfeiçoamentos, surgia a válvula audion, responsável pelo desenvolvimento da indústria das transmissões radiofônicas, que mudaram hábitos em todo o mundo.
 
A previsão teórica da existência e propagação de ondas eletromagnéticas no espaço livre, feita em 1864 pelo matemático e físico escocês James Maxwell (1831-1879), despertou grande atenção da comunidade científica. Mas só por volta de 1890, em uma das mais belas experiências da Física, o físico alemão Heinrich Hertz (1857-1894) demonstrou sua existência. Hertz usou dois capacitores esféricos e bobinas, ligados a uma bateria, para gerar faíscas entre os pinos que separavam as esferas produzindo então uma onda eletromagnética no espaço livre. Servia de detector um fio dobrado em forma de anel, com pinos esféricos nas extremidades, distante e sem nenhum contato com as esferas. Quando uma faísca era produzida entre as esferas, outra faísca podia ser observada entre os pinos do anel, indicando a propagação da onda eletromagnética pelo espaço. Hertz conseguiu ainda medir sua velocidade e seu comprimento de onda.

Como vimos, a possibilidade de uso das ondas eletromagnéticas para comunicações sem fio, embora vista como algo meio misterioso, despertou o interesse de cientistas e engenheiros, como o genial inventor brasileiro, gaúcho, Padre Roberto Landell de Moura (1861-1928), no Brasil, Oliver Lodge (1851-1940), na Inglaterra, Guglielmo Marconi (1874-1937), na Itália, Karl Ferdinand Braun (1850-1918), na Alemanha, e Aleksander Popov (1859-1906), na Rússia, Nikola Tesla (1856-1943), nos Estados Unidos, entre outros. Esses visionários tentaram desenvolver tecnologias práticas para transmitir sinais (Código Morse) ou som em curta ou longa distância. Em 1901 Marconi realizou a primeira transmissão telegráfica sem fio, que cruzou 3.400 km do oceano Atlântico, entre Newfoundland, no Canadá, e Poldhu, na Inglaterra. Roberto Landell de Moura, em 1900, conforme noticiou o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, edição do dia 10 de junho, na página 2, realizou experiências, com vários aparelhos de sua invenção, transmitindo a fonia e sinais telegráficos, sem fios, por ondas eletromagnéticas e ondas luminosas, da Avenida Paulista para os altos de Santana, na capital paulista, numa distância de 8 km, demonstrando algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade, através do espaço, da terra e do elemento aquoso, as quais foram coroadas de brilhante êxito.

Um dos primeiros detectores de sucesso foi o coesor proposto  pelo físico francês Edouard Branly (1844-1940) por volta de 1890. Em linhas gerais, esse coesor era uma ampola de vidro com dois eletrodos cujas pontas quase se tocavam e estavam expostas ao pó de níquel e prata. Com a incidência da onda eletromagnética no detector, as partículas de pó se aglutinavam em forma de fios no espaço entre os eletrodos, diminuindo a resistência elétrica entre eles. O sinal era detectado por um fone de ouvido ligado em série com o detector. As partículas sofriam um processo de nanossolda e precisavam voltar ao estado de dispersão, requerendo, para isso, algum mecanismo engenhoso de vibração (de coesor). Roberto Landell de Moura, Lodge, Marconi e Popov usaram esse tipo de detector em seus primeiros experimentos. A principal limitação era que ele só servia para a telegrafia de pulsos (do tipo liga-desliga) e não respondia às necessidades de recepção linear de áudio.

Por volta de 1874, Braun havia descoberto o efeito de retificação (passagem de corrente elétrica em um único sentido) em contatos entre pontas metálicas e semicondutores. Esse efeito foi utilizado depois na criação dos detectores de cristal. Os detectores usavam cristais naturais de galena (sulfeto de chumbo) montados sobre uma base metálica (contato elétrico inferior); na parte superior do cristal o contato era feito por meio de um fio fino e pontiagudo de bronze fosforoso, em forma de mola ajustável. Em razão dessa montagem e da dificuldade de ajuste, eram chamados de “bigode-de-gato”. Embora fossem mecanicamente instáveis e não garantissem bons contatos de retificação, os detectores de galena possibilitaram a recepção de ondas eletromagnéticas que transportavam sinais de voz, viabilizando a tecnologia do rádio.

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