Larápios

Publicado em: 19/10/2012

No começo, eram espetos, alguns tijolos, telhas e cimento de uma ou outra construção, coisa rara porque a praia não era conhecida e só os malucos é que se enfurnavam naquele paraíso. Os amigos do alheio roubavam para ir aos botecos, talvez a um baile, ou porque eram vadios mesmo, sem pendor para o trabalho, e precisavam garantir a cerveja barata ou o cuba no fim de semana. Andavam em duplas, um acobertando a ação sorrateira do outro, avisando se aparecesse alguém. A polícia nem ficava sabendo desses pequenos furtos. Depois, com a descoberta do recanto pelos moradores dos bairros e municípios do continente, e com a multiplicação – ainda modesta – das residências de veraneio, os larápios de meia pataca passaram a levar rádios a pilha dos pedreiros e serventes, um que outro aparelho das casas já entregues, ferro, alumínio e caixas de piso esquecidos nos canteiros de obra.

Era a conta para a maconha, que abria mentes para uma rotina bem menos dolorida dessa que nos é dado viver. Avisada, a PM achou que os donos eram abonados para sentir falta dessas miudezas e fez vistas de mercador.

Chegou uma hora em que passaram a desaparecer bicicletas, cadeiras de praia, redes, mesas desmontáveis, e até bacios e pias de banheiro, que já podiam ser trocados por pedras de crack. A DP fez buscas, deu sustos em meia dúzia de delinquentes e recuperou alguma coisa, mas não foi contundente como deveria. Em outras palavras, deu gás a um grupo crescente de viciados cujos pais desconheciam o destino sem volta dos rebentos que trouxeram ao mundo.

Num outono desses, e também no inverno subsequente, 36 residências foram esvaziadas. Os ladrões chegavam de caminhão, estacionavam no quintal ou numa esquina, fingiam ser de empresas de mudanças – e faziam a limpa. O que não levavam era quebrado, destruído, espicaçado. Com dois ou três moradores fixos, e sem qualquer patrulha de segurança, o sucesso era líquido e certo. A polícia se viu obrigada a agir, e flagrou a quadrilha, liderada por uma filhinha de papai, jovem nascida para espalhar o terror, com ares de chefe de gangue. O bando foi desbaratado.

Agora, na calmaria da primavera, veio a notícia, pela boca do presidente da associação de moradores: em duas semanas, sumiram 16 botijões de gás no loteamento. Restou aos proprietários recolherem o que estava fora de casa, reforçarem as portas, aumentarem o peso dos cadeados. Ou talvez, como disse um deles, voltarem a usar lenha na cozinha, porque o produto tem pouco valor no mercado.

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