Lavar a égua

Publicado em: 10/01/2006

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Por Léo Saballa

Esta radiografia extraída do comportamento tupiniquim e sintetizada por Rui Barbosa, em um contundente discurso no Senado em 1914 continua atual e pautando a vida de muita gente. Não tirar uma casquinha para obter benefícios pessoais chega a ser burrice nos nossos dias. Afinal, todos fazem isso.
O mundo é dos espertos. Quem não cola não sai da escola. Às vezes é preciso molhar a mão do guarda para não levar multa. Que mal há em político oferecer um mimo para jornalista? Goiaba roubada é mais gostosa. Achado não é roubado. Uma mão lava a outra. Quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão. Feio é roubar e não poder carregar. Farinha pouca, o meu pirão primeiro. O importante é chover na minha horta, puxar a brasa para a minha sardinha, lavar a égua, comer até o caroço.
Como diria Gerson, o ex-craque da Seleção Brasileira, na propaganda de cigarro: gosto de levar vantagem em tudo, certo? Errado. O Brasil está chafurdado na corrupção e na roubalheira justamente porque a maioria da população pensa exatamente assim. Essas formas levianas de pensar resultam quase sempre numa ação delituosa natural.
O exemplo, na maioria das vezes vem de cima, dos homens públicos, das pessoas que nos enganaram para ganhar o nosso voto. Agora, na condição de representantes populares, julgam-se donos do cofre e com poderes para fazer distribuições ou retiradas sem qualquer critério de interesse coletivo. Não há nenhum constrangimento em meter a mão no dinheiro público para fins diversos. Afinal, se a grana é de todos não é de ninguém.
Ética é pura abstração para essa gente que enxerga apenas a realidade imediata da conta bancária. A honestidade, para eles é uma bobagem que não enche a barriga de ninguém. A consciência faz parte do discurso de cada um, mas passa longe do comportamento de todos. Este ano, mais uma vez teremos eleições e novamente seremos obrigados a legitimar a subtração dos valores mais caros da sociedade brasileira.


{moscomment}

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *