Leio. Logo, penso…

Publicado em: 25/05/2009

Uma das cenas clássicas do cinema é aquela onde um escritor em crise retira da máquina de escrever uma folha com algumas palavras, amassa e joga no cesto de lixo. O diretor faz um corte para a queda da bolinha de papel ao lado de uma dúzia delas indicando a falta de inspiração do pobre profissional. Por Alvaro Bufarah

Hoje a situação mudou no sentido da tecnologia, onde não temos mais a folha em branco na máquina, mas sim, uma página branca em nosso editor de texto no computador. Nesse ponto me recordo de uma fala do publicitário Agnelo Pacheco, afirmando que um dos maiores dramas dos profissionais de criação é ficar ali olhando uma página em branco aguardando uma idéia chegar, sabendo que tem de ser boa, exclusiva e inovadora.

Acredito que sofremos de estresse da pós-modernidade (se é que podemos chamar assim). Vivemos em um mundo tão acelerado que não temos mais tempo nem de pensar. Refletir é algo doloroso e cada vez mais difícil em nosso dia-a-dia.

Um dos piores elementos dentro desse processo é a falta de repertório de nossos profissionais criativos. Não importa a área, cada vez mais as pessoas sabem cada vez menos. Me parece que ter ferramentas milagrosas como o Google e o Yahoo transformaram nossa memória em algo sem função. Não precisamos mais ler, estudar, escrever e argumentar. Basta um double click para chegarmos à informação, ou melhor, a uma pilha de dados. Ai é só escolher… Faça um Ctrl C e um Ctrl V e pronto: alguém gentilmente já pensou sobre o que você deveria pensar…

Isso me assusta! Não pelo uso da tecnologia, mas sim, pela preguiça mental que estamos deixando se instalar em nosso mundo. De uma forma geral, o brasileiro já lê pouco, sendo que as justificativas passam pela baixa renda dos leitores e pelo alto custo dos livros.

Quero lembrar que temos livros de bolso com ótimos preços, temos sebos (até virtuais) para a aquisição de obras em bom estado e ainda temos as bibliotecas. Não é só de conteúdo virtual que vivemos. Mas se você preferir, há uma grande variedade de livros para serem baixados gratuitamente na rede. Mesmo com tudo isso ainda se lê pouco…

A realidade é muito mais cruel que isso, temos um grave problema que é a falta de uma política pública de educação que tire as futuras gerações desse limbo intelectual. No caso dos veículos de comunicação, a situação é muito mais terrível se levarmos em conta que a opinião pública também é educada por eles.

Se fizermos uma avaliação dos profissionais de comunicação brasileiros formados nos últimos 20 anos veremos que temos uma queda brutal na qualidade reflexiva da maioria. Se somarmos isso às facilidades das ferramentas on-line teremos uma junção explosiva que causa um ciclo vicioso. Temos uma população pouco instruída que é educada por um professor mal formado, em uma escola despreparada e por profissionais de informação alienados.

Nas emissoras de rádio, a situação fica fácil de ser percebida quando pedimos a um apresentador para improvisar sobre um determinado assunto enquanto resolvemos algum problema. A montanha de frase sem sentido, erros de concordância e informações desencontradas demonstram claramente que algo vai muito mal. O pior é que o ouvinte que recebe tudo isso sem poder questionar o processo.

Temos a falta de tempo, o estresse do dia-a-dia, os compromissos que param de aparecer, mas temos de encontrar no meio desse ciclo um espaço para estudarmos, lermos e aprendermos. Tudo pode ser muito interessante, desde que você saiba buscar formas de melhorar sua bagagem cultural.

Atenção gestores: para termos produtos e serviços melhores no ar precisamos de profissionais melhor capacitados. Que tal estimular a leitura de livros e até incentivar seus funcionários a voltar a estudar com um esquema de bolsa (dado pela empresa, claro). Se você acredita que sou um sonhador e que escrevi um monte de bobagens aqui, sinto muito. O tempo e as estatísticas estão ao meu favor. Portanto, citando o filosofo René Descartes que afirmou que “penso, logo existo”, eu digo que para pensarmos temos de ler e aprender todos os dias.
 
Dica de livro

Em tempos de crise de identidade, falta de conteúdo e leitura, sugiro um livro já conhecido. “Ansiedade de informação”, de Richard Saul Wurman traz uma análise interessante do processo de produção, veiculação e acúmulo de informação em nossos dias. Embora não seja uma obra nova, vale a leitura, pois passamos a perceber onde estamos no meio desse tiroteio de dados. O livro foi editado no Brasil pela Editora de Cultura.

Prof. Alvaro Bufarah, jornalista, especialista em política internacional, mestre e pesquisador sobre rádio. Coordenador da Pós-Graduação em Produção e Gestão Executiva em Rádio e Áudio Digital da FAAP.

Rádio Agência

Colaborou Vera Lúcia Correia da Silva

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