Lenha na fogueira de neve

Publicado em: 28/04/2011

“Genious Within, inner life of Glenn Gould”, documentário dirigido por Michèle Hozer e Peter Raymont , seleção oficial do Festival de Filmes de Toronto, 2009, já pode ser requisitado pela internet. Mais um retrato cinematográfico sugerindo contornos no perfil cotidiano do pianista recolhendo entrevistas com familiares e pequenas cenas, digamos, mais coloquiais do próprio Gould. Mais lenha nesta fogueira erguida na gélida planície canadense, ali mesmo aonde este “orgulho nacional” exerceu sua “trincheira criativa” pretendendo se isolar justamente desse alimento mundano exercido pelas mídias.

Caiu em sua própria armadilha, poderiam pensar alguns. Mas como alguém nesta nossa aldeia global poderia escapar? (nesse embate entre as paredes mais estreitas do entretenimento, não seria demais lembrar o também  canadense McLuhan). Na verdade, nos interessa esta oportunidade para lembrar o legado desse artista, pensador criativo que inseriu o rádio em seu movimento inovador.

Naquele ano de 1967 a Canadian Broadcasting Company entre uma série de projetos especiais para comemorar o centenário do Canadá encomendou uma obra radiofônica a Glenn Gould. Não esperava receber algo “comum”, segundo Janet Somervil , integrante da equipe da CBC: “desde a primeira conversa ficou claro que um documentário inovador já existia em seu ouvido mental”.

Entre 1967 e 1977 Gould realizou sua Trilogia da Solidão – radiodocumentários contrapontísticos – gravando na gélida região do norte e posteriormente editando esse material nos estúdios da CBC em Toronto, resultando em três programas: A Ideia do Norte, Os Retardatários, e O Silencio da Terra, aonde pretendeu colocar em cena, “pessoas ou grupos que escolheram viver no isolamento ou que decidiram permanecer longe dos caminhos banais da cultura”.

Embora não fosse sua primeira experiência radiofônica – em 1962 escreveu um roteiro sobre Arnold Schoenberg que acabou resultando num documentário linear, longo, distante de seu desejo de experimentação – aquela trilogia estaria destinada a ser um divisor de águas seguindo o caos Cageano, Gould pensou: “… colocar as coisas em liberdade no espaço, pois o caos não é o inimigo e sim o motor do mundo”.

Um atalho a ser seguido nesse caos das informações importantes e nem tão importantes assim.  A vida interior de um gênio pode ser sondada, exposta, suposta, não chega a ser ruim ou inútil, às vezes servem mesmo como portas de entrada para outras informações, embora pareçam bela fogueira na neve prestes a derreter… qual seria a verdade interior de Glenn Gould? Parece ser melhor apostar na escuta porque, ao invés do olhar, nunca está fora de sua obra.

P.S. – Ótimos estudos sobre essa obra radiofônica de Glenn Gould já foram realizados, alguns deles por pesquisadores brasileiros como   “Ouvido Reporter: por um radiojornalismo acústico” do jornalista Rodrigo Manzano.  A Trilogia da Solidão está disponível em caixa com três CDs “Solitude Trilogy, three sound doxumentaries, lançada pelo selo CBC Records.

 

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