Locutor a força! 2

Publicado em: 23/02/2005

Estudo ou trabalho? O fim dos anos 50 e o início dos anos 60 foi muito bom para mim. Cumprira o serviço militar na Base Aérea de Florianópolis e havia voltado para o que meus companheiros de farda chamavam de “o mundo lá fora”.
Aguinaldo José de Souza Filho

“Nem mais um centavo até voltar para a escola ou arrumar um emprego”, foi a resposta do meu pai quando lhe pedi uns trocados. O serviço militar me havia deixado apático com o ‘mundo cá fora’ e eu não estava preparado para enfrentar os livros… ainda!

“Trabalhar? fazendo o quê?” pensava eu com meus botões enquanto ouvia num radio rabo-quente – lembram deles, sem transformador que ao esquentar vibravam? –  o locutor tropeçar em cada segunda palavra! Foi quando me dei conta de que, na escola, os maristas sempre me chamavam à frente da turma para ler porque eu tinha boa dicção. Minha voz estava terminando sua ‘mutação’ adolescente para adulto, ainda que com alguns falsetes de quando em quando. Se este locutor que lia tão mal estava sendo pago para falar no rádio, achei que eu também poderia ser locutor de rádio! Afinal, havia trabalhado em caminhões de alto-falantes durante a campanha de Jânio Quadros, e me lembro como as garotas elogiavam a minha “linda voz”.

Sacudi a letargia e fui ao centro, depois de descobrir o endereço de algumas estações de rádio. A primeira foi a hoje inexistente Rádio Mayrink Veiga, na Avenida Rio Branco, perto da praça Mauá. O chefe dos locutores, Jair de Taumaturgo e seu assistente, Isac Zaltman gostaram do “desempenho do menino” e disseram que me apresentasse no dia seguinte às três e meia da madrugada para trabalhar!

Desci aquelas largas escadas que levavam ao segundo andar como se estivesse caminhando sobre colchões de ar! Corri de porta a fora em direção a outra estação pertinho dali – a rádio Relógio, na esquina da Rio Branco com a Avenida Getúlio Vargas, bem em frente a um grande hotel, do outro lado da Candelária. O sucesso se repetiu! Peguei o bonde – na época os bondes ainda existiam – e parecia que ele nunca mais chegava.

Ao terminarmos o jantar aquela noite, eu não resisti e, sem dizer nada, pedi novamente uns trocados a meu pai, que me deu a mesma resposta, desta vez mais chateado. Eu respondi que pagaria no fim do mês. “Como?” respondeu ele mais que depressa, entre surpreso e meio aborrecido com minha aparente brincadeira. “Bem”, disse eu quase não agüentando mais guardar aquele segredo, “começo a trabalhar hoje a noite na Rádio Relógio e depois pego na Rádio Mayrink Veiga as três e meia da manhã até às sete.

Meu pai não disse nada e foi ouvir o seu repórter Esso. Dia seguinte, quando íamos sentar para jantar, papai me chamou, meteu a mão no bolso, tirou sua carteira e me passou uns trocados. “Me ouviu no rádio, não foi?” Ele sorriu e tivemos um jantar maravilhoso.

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