Locutor a força 23

Publicado em: 27/07/2005

Finalmente em Londres!
Eu estava deitado no Dam Square, com o capuz da jaqueta militar tapando a luz do sol que nascia brilhando em Amsterdam. Acabara de chegar de Paris e tentava recuperar o sono perdido. Começou a choviscar.
Aguinaldo José de Souza Filho

Subitamente ouvi uma fina voz feminina: ” Do you speak english?”Aventurei abrir um olho. Foi quando vi o meu ‘ticket’ para Londres. Lisa era uma canadense com ‘rendez vous’ marcado com o marido em Israel. “Buy me a coffee?” “Sure”, respondeu ela armando um sorriso.

Sentamos na mesa junto a janela de um bistrot frente a catedral, vendo a chuva deslisar pelo vidro. O café desceu roliço! Pouco depois Lisa me apresentou o Fantasio e o Paradisio, uma igreja e uma escola que haviam se tornado centros oficiais para compra e consumo de drogas, administrado pelo governo. A forma que o estado encontrou para acabar com a venda ilegal de drogas e adminstrar atendimento médico gratis aos viciados. Os prédios possuiam várias salas, cada uma com um ambiente diferente – música clássica, rock ‘n roll, música de dança, desenhos animados, e outras. Ambiente para todas as viagens! Na porta um homem de Curaçao abriu sua jaqueta militar e mandou eu escolher. Agradeci. Ele me ofereceu um cachimbinho de barro com uma ‘amostra’. Lisa pegou. Entramos, pegamos um chá, sentamos no tapete e fumamos. Foi a maior loucura! O mêdo era tamanho que quase quebrei os dedos da canadense apertando sua mão. Depois de uma noite muito louca num hotel, eu a convenci a ir para Londres comigo. Na fronteira inglesa, desta vez com aparência de hippye e dinheiro que Lisa havia colocado no meu bolso, consegui entrar.

Finalmente! Alugamos um quarto numa pensão perto do centro. Repetimos a dose dos hormonios e fomos dar uma volta na Oxford Street e acabamos no Bush House, onde fica a BBC. Subimos e fomos falar com o diretor do serviço brasileiro. Estavam lá Ivan Lessa, Mariana Zappert, Renato Machado, Jader de Oliveira e muitos outros. Acertei começar dia seguinte fazendo inicialmente vozes. Lisa não pode ficar mais e partiu uma semana depois para encontrar o marido em Tel Aviv. Eu dava aulas de português intensivo de manhã para executivos ingleses no Language Studies Limited, gravava programas de tarde na BBC e das 18 à meia noite era garçon no Stock-Pot,  um restaurante de pasta perto do Strand, quem desce do Picadilly Circus em direção a Trafalgar Square.

Respondera ao Julius Petrick que estaria em Praga dentro de um mês. Estava levantando capital para chegar montado e motorizado. Foi quando conheci Airton Senna, que hospedou-se na casa de um amigo dele, meu colega da BBC, quando foi a Londres em uma de suas primeiras corridas internacionais. Acompanhei de perto o drama existencialista de Ivan Lessa, o correspondente do Pasquinho que me chamava de ‘a voz de ouro da BBC’, que só vinha ao Brasil se seu advogado o recebesse no aeroporto. Tinha medo de desaparecer durante o regime militar! Criei um programa de jazz, que foi bem recebido pelos ouvintes de ondas curtas, e além de narrar vários programas culturais, era uma das vozes do jornal falado que o Ivan Lessa produzia. Um mês se passara e Petrick me esperava. Frustrado por não ter conseguido entrar na RADA, Royal Academy of Dramatic Art, minha atenção agora estava voltada para a FAMU, a famosa e cobiçada universidade de cinema de Praga, onde estudaram luminares como Miles Formam, diretor de obras como One  Flew Over the Cookoo’s Nest, Mozart, The Lightness of Being, e muitas outras.

O frio ainda não havia chegado quando tomei o trem rumo a Köln (Colônia), na Alemanha. Da estação eu telefonava para os anúncios de carros à venda, e eles o traziam até lá. Queria um Mercedes 190SL, mas financeiramente fui obrigado a me satisfazer com um fusquinha 62 conversível. Quase não me deixam passar na fronteira tcheca – o mesmo dilema de Berlim oriental – as fotos não refletiam o visual, agora barbudo e cabelos compridos. Quase duas horas de vai-e-vem e alguns telefonemas deram conta do recado. Eu estava finalmente a caminho da rádio Praga e de uma vida completamente nova e cheia de surpresas – boas e más.  Falamos mais semana que vem.


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