Locutor a força 24

Publicado em: 20/07/2005

Rádio Praga
Praga é a mais linda cidade da Europa. Sua arquitetura medieval, com prédios e castelos com mais de mil anos fazem dela hoje a cidade favorita de Hollywood para filmagens de época – além do baixo custo de produção.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

A rádio Praga fica na avenida central, Vaclav Namesti, que foi o palco das grandes manifestações contra a invasão soviética em 1968.

Petrik, visivelmente empolgado com a minha chegada, levou-me imediatamente a vários andares da emissora me apresentando a tudo e a todos, através de um elevador sem porta em movimento perpétuo – quando passa no teu andar você pula dentro, o mesmo para sair – literalmente. O que me impressionou de imediato foi que 90 por cento dos funcionários eram recém graduados, e na maior linda tchecas. A redação do serviço brasileiro era formado por mim, pela baiana Rosana, e duas tchecas. Uma, ex-esposa de um diplomata tcheco aprendera português com a empregada – como eu dizia. A outra estudara português na universidade local. Estas ‘tradutoras’ passavam as notícias da agência local do tcheco para o português, sendo o nosso trabalho editar esse texto  assacrado e sem nexo. Não era prioridade da Rosana nem minha que as notícias comunistas propagandistas fizessem muito sentido, por isso o ‘sem nexo’ permanecia, só que com os pontos nos iis!

A nossa redenção era quando executávamos matérias próprias sobre a cultura e a vida na então Tchecoslovaquia, que mais se assemelha a uma sinfonia de Antonin Dvorák.

Foram 364 dias maravilhosos na cidade que tinha sido a favorita de Hitler e cujo bar predileto ainda hoje é atração turística, um dos motivos porque Praga não foi bombardeada durante a segunda guerra mundial, para simplificar a história. Você pode degustar uma plzen geladinha sentado na cadeira do ditador alemão.

Os países do bloco comunista eram notórios por plagiar músicas do ocidente sem dar a menor bola a direitos autorais. Uma prática comum era pegar uma música ocidental e gravá-la com um cantor de voz semelhante, imitando nos mínimos detalhes os arranjos musicais, e lançando no mercado interno como se fosse composição tcheca. As imitações eram perfeitas.  Um exemplo gritante foi a canção do cantor americano Kenny Rogers,  Ruby, Don’t Take Your Love to Town. A não ser pelo idioma, era difícil dizer quem veio primeiro!

A rádio Praga ocupava um prédio de quatro andares bem atrás da biblioteca nacional, um majestoso prédio antigo, no alto da Praça Vlaclav (Venceslau). Seus estúdios eram antiquados, mas eficazes. Ao invadirem a Tchecoslováquia em 1968, os soviéticos pensaram que tinham tirado a estação do ar para evitar pedidos de ajuda ao ocidente. Mas seus detetores continuavam registrando a existência de transmissão saindo daquele prédio. Na parte da frente dos controles estava tudo apagado. Mas como é que assinalava a saída de sinal de rádio? Levaram três dias para se dar conta de uma parede falsa atrás dos controles, onde os tchecos haviam soldado as conexões por trás dos painéis, e de onde transmitiam seus pedidos de ajuda contra os invasores. Foi assim que o mundo ocidental ficou sabendo da verdade, mas assim mesmo não havia muito que pudessem fazer – e ninguém estava disposto a enfrentar a então poderosa força militar soviética! Hoje os Eslovacos desfrutam da separação dos Tchecos que Hitler lhes havia prometido enganosamente, e que foi preciso esperar até à queda do muro de Berlim para que se tornasse uma realidade.

Uma vez instalado num apartamento fornecido pela rádio, minha atenção se voltava para a verdadeira razão da minha ida para aquele país – fazer o teste para entrar na FAMU, uma das melhores e mais difíceis escolas de direção de cinema da Europa, onde, afora os nativos, só abre vaga para cinco estrangeiros por ano. Chegou a hora de me preparar.

Falamos mais semana que vem.


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