Locutor a força! 4

Publicado em: 10/03/2005

Tentei dormir um pouco antes da minha estréia no rádio. Foi um exercício em futilidade. Cansado de gastar o lado de fora de tanto virar na cama, decidi me levantar.
Por Aguinaldo José de Souza Filho, de FlorianópolisA cabeça não parava. Vou fazer assim… não,  vou empostar a voz assim… não, é melhor falar normal… e falei em voz alta a viagem inteira naquele bonde vazio. O cobrador português já me olhava de lado, desconfiado…

A Rádio Relógio ficava no último andar de um alto prédio comercial na esquina das avenidas Rio Branco e Getúlio Vargas, bem em frente ao hotel Trocadero. O horário era perfeito – das 22 horas até as 2 da madruga, uma hora e meia de descanso antes de começar na outra. A estação era uma recepção, um escritório com algumas escrivaninhas, uma salinha com os controles e a cabine minúscula para o locutor. A única luz acesa quando eu cheguei era um pequeno refletor ao lado do microfone para iluminar os textos comerciais, o resto estava no escuro. Achei estranho mas disseram logo para não acender nenhuma luz. Ao todo éramos dois locutores que se revezavam de tempo em tempo, o locutor que eu substituí e o operador de som.

Entrei na cabine e comecei meu primeiro turno como locutor praticamente sozinho, porque os resto do pessoal estava ocupado sentado na janela ou na marquise do andar, que dava para o hotel em frente, entretidos com alguma coisa, todos com binóculos ou lunetas. Eu passei minhas primeiras duas horas na “nova profissão” com um olho no texto e outro na janela. “O que é que podia entreter tanto eles, àquela hora da noite, no escuro?” Aproveitei para praticar várias formas de locução, até achar uma que fosse confortável. Imitei os grandes da época, mas achei melhor ser eu mesmo. “Afinal, quem estaria me ouvindo a essa hora”, pensei. Mal sabia eu do alcance e da quantidade de ouvintes que aquela estação possuía. O telefone não parava de tocar com gente querendo saber a hora – o que fazia os companheiros largarem seus binóculos xingando.

Minha curiosidade foi saciada duas horas mais tarde quando meu substituto relutantemente entrou na cabine. Era pleno verão, de noites quentes. O hotel, ainda que de um certo nível, era um local favorito das meninas da noite, que praticavam sua profissão com as janelas abertas devido ao calor, e muitas com a luz acesa. Era para isso que serviam os binóculos! O espetáculo do outro lado da avenida era variado e sem fim, com as mais diferentes combinações de gênero e número! Não era só isso. Mulheres passavam a noite telefonando para a estação, fingindo pedir a hora, puxavam conversa, que acabava ou não dando em encontros. Como forma de peneira, perguntávamos para que time torciam, e se respondiam ‘Framengo’, ficava a nosso critério continuar ou não o papo. E assim foi a primeira parte do meu primeiro dia como locutor de rádio no Rio de Janeiro. Fui para a Mayrink Veiga, a poucas quadras de distância, onde outra surpresa me esperava.

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