Locutor a força! 5

Publicado em: 16/03/2005

A primeira madrugada! A rádio Mayrink Veiga tinha um programa de auditório para calouros às seis da manhã, e ficava lotado de estivadores que chegavam cedo porque o trem seguinte os atrasaria.
Aguinaldo José de Souza Filho, de Florianópolis*

O meu horário era das três e meia às sete e meia. Fernando, o locutor tradicional desse programa, chamou as seis da manhã para dizer que estava doente e que não viria trabalhar. Não havia outro locutor na casa e o operador de som disse que eu não tinha escolha. O show era meu! Aquele garoto de 19 anos tremeu na base!

A postos no palco, com os cartões dos comerciais em punho, escorado atrás do microfone e da grande cortina de veludo que me separava daquele auditório lotado de estivadores mal encarados, segurando suas marmitas e com cara de sono, comecei a sentir uma fraqueza nos joelhos. Olhei para o ‘aquário’ da técnica e o operador tocou a música de abertura do show.

A presença de Canhoto e seu Regional à minha esquerda ajudaram um pouco. A cortina abriu! A música acabou, e meus joelhos quiseram dobrar! Parecia um daqueles pesadelos onde você se sente nu e todo mundo está olhando!

Consegui ler o cartão com o texto de abertura do programa. Li o primeiro comercial e virei para a técnica, porque o cartão dizia que ele deveria tocar um jingle. O operador fez sinal para eu ir adiante. Eu fiz sinal para ele tocar o jingle… aquele vai-e-vem pareceu uma eternidade. A platéia começava a se mexer nas poltronas que rangiam de velhas.Ficou aquele buraco! Imaginei o Jair de Taumaturgo em casa ouvindo e arrancando os cabelos, e eu no olho da rua. Apresentei o primeiro calouro.

Quando ele acabou eu já me sentia um pouco melhor e mais organizado. O ‘sonoplasta’ no fim elogiou, mas com alguns senões e o diretor nunca disse nada, mas eu passei uns dias preocupado. Já me sentia apto a animar os shows dominicais onde compareciam Roberto Carlos e Juca Chaves, entre outros.

No meu horário de madrugada, existia um segmento de tangos. Decidi modificar a apresentação tradicional das músicas e inventava poemas que terminassem com o título do tango. Foi um sucesso com as “meninas da noite”. Os telefones, até então mudos à noite toda, passaram a incomodar o sonoplasta, porque eram sempre para “aquele locutor poeta de voz suave”. Muitas foram as ‘mariposas da noite’ solitárias que procuravam com quem falar para afastar a solidão. A profissão de locutor não se limitava a falar no rádio e a animar programas de auditório. Como eu tinha uma voz madura, uma destas meninas decidiu me esperar na saída do trabalho com seu Impala conversível.

Ao me aproximar do carro e dizer quem eu era, “Mas você é um garoto” disse ela, queimando borracha e me deixando ali na beira da calçada, com cara de bobo e cheio de sono!

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Aguinaldo José de Souza Filho – [email protected]
Anchorman, ator, produtor, locutor, narrador e tradutor, é professor de fotografia e consultor de comunicação.

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