Locutor a força! 6

Publicado em: 23/03/2005

Deus existe! Foi quando voltei para a escola. Cursei a Fundação Brasileira de Teatro, da atriz Dulcina de Moraes, ali na Cinelândia, e consegui emprego nos estúdios da Voz da América, na embaixada americana.
Por Aguinaldo José de Souza Filho, de Florianópolis

 Trabalhei como engenheiro de som e assistente do cinegrafista da embaixada, e fazia algumas reportagens para a Voz da América. O curso de ator me aproximou de algumas personalidades da televisão, como Reginaldo Faria, Daniel Filho, Milton Ribeiro e outros, no mundo da dublagem, além de algumas pontinhas em novelas no começo da TV Globo. Paralelamente fazia trilhas sonoras dos documentários da Jean Manzon – o que não durou muito.

Em 1962 a Voz da América decidiu reiniciar suas transmissões para o Brasil. Abriram testes. Eu fiz. Fui classificado entre os melhores. Lillian Lamacchia, então diretora do serviço, veio ao Rio para entrevistar os candidatos aprovados. Eu já estava de mala e cuia nas escadarias da embaixada americana, pronto para partir. A nata do Rio e de São Paulo estava lá para a reunião. Depois das boas vindas, Lillian me chamou para tomar um café. “A coroa gostou de mim”, pensei orgulhoso.

“Gostei do teu teste e da tua voz, mas você precisa de um pouco mais de experiência”, disse ela para mim. Meu coração quase parou!

Lá estava eu, casado, uma filha, desempregado, tendo arriscado tudo pelo sonho de ir para o exterior. Eles só estavam interessados em grandes nomes do rádio – e eu ainda era um João ninguém!

Fui trabalhar na rádio Tamoio – ‘música, exclusivamente música’, que tinha um biombo atrás dos locutores para a voz “reverberar” e sair mais grossa, passei uns meses noutra, chamada rádio Continental, que pertencia a um deputado. Um dia, descendo as altas escadas para sair na rua Riachuelo no centro do Rio, lá estava o deputado dono da estação, exibindo a farta colheita de frutas e legumes de sua chácara na traseira de seu enorme chevrolet ‘station wagon’, enquanto que eu, com mulher e um recém-nascido – assim como muitos outros funcionários – estavam sem receber salário há três meses. Aquilo me revoltou o estômago, xinguei o desgraçado de tudo quanto era nome e contratei um advogado. Levou um ano para a justiça tomar algumas máquinas de escritório da estação e leiloar para pagar o que a estação me devia. Os outros? teriam que fazer o mesmo se quisessem receber!

A idéia de ir para o exterior começou a crescer dentro de mim. Passei a ouvir a BBC de Londres, a Rádio Suécia, a VOA (Voz da América), a Rádio Canadá, Vaticano, Praga e muitas outras. Comecei a ficar com febre de viagem! O paliativo era escrever para todas! Entre uma pontinha em novela, uma dublagem ou um papel no palco com Luis de Lima, a busca era implacável. Fiz testes e mais testes, até que a Rádio Suécia abriu vaga. Vários locutores se candidataram e alguns foram aprovados, mas só havia uma vaga, que foi oferecida para um candidato de São Paulo, que não gostou do salário. Eu estava em segundo lugar!

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Aguinaldo José de Souza Filho – [email protected]
Anchorman, ator, produtor, locutor, narrador e tradutor, é professor de fotografia e consultor de comunicação.

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