Locutor a força 9

Publicado em: 18/04/2005

Dentro da Escandinávia, a Suécia tem um lugar especial entre seus vizinhos e na história. Em poucos séculos passaram de vikings a uma das sociedades mais civilizadas da face da terra.
Aguinaldo José de Souza Filho

Stanley e Karen!

De destemidos guerreiros a temidos pelos dinamarqueses, noruegueses e finlandeses por beberem muito e portarem facas. Durante o tempo que passei na Suécia, sempre tive a sensação de que a palavra ‘desonestidade’ não existia em seu vocabulário. Até conhecer Stanley. Eu estava na  entrada da Rádio Suécia, pensando como fazer para ir almoçar sob aquela neve que caia pesado e silenciosamente, quando Stanley, um engenheiro de som da estação, apareceu. “Bom dia Stanley, então como vai, tudo bem?” Eu devo ter tocado um nervo no rapaz. Oferecendo-se para me levar em seu Opel 1954 multicolorido para almoçar, Stanley levou ao pé da letra meu “como vai?’ e despejou sua vida no meu colo! Vocês têm de entender que os suecos dizem o que pensam, mesmo que doa, sem a intenção de machucar. Por vezes é chocante, mas faz parte da cultura. Foi uma surpresa e uma revelação. Mas tudo bem. No almoço eu emprestei meus ouvidos ao jovem que parecia precisar desabafar. Ao entrarmos no carro do Stanley para voltar ao trabalho, ele começou a dar voltas pela periferia da cidade, circunavegando Estocolmo. Perguntei porque não ia pelo centro, muito mais curto e mais rápido. Stanley virou para mim, meio embaraçado, e fez outra confissão: “sabe, esse carro está todo ilegal. Eu o estou montando aos poucos com peças de outro Opel que tenho na garagem. Se a polícia me pegar assim, a multa vai ser enorme e me tiram a licença!” Eu não estava acreditando. Um sueco tentando burlar a lei?

Às seis da tarde, quando terminava de gravar  o primeiro capítulo de uma série que criara contando, em formato de rádio-teatro, as aventuras do deus Thor da mitologia escandinava, Karen, a secretária do serviço internacional entrou no estúdio com um ar alegre no rosto e me convidou para uma festa. Era sexta-feira. Parecia que as surpresas daquele dia não se cingiam às aventuras de Stanley. Entre os convidados  estava um jovem de 21 anos que ficara famoso por se ter casado com uma milionária de 78 anos. Esta não se importava que seu novo marido fosse assediado por várias meninas de sua idade. Ele admitira abertamente à imprensa que casara por dinheiro. e isso estava bem com ela. Parecia mais um espetáculo digno daqueles circos onde desfilam seres com duas cabeças! Todos queriam ver! Mas eu precisava me concentrar na minha anfitriã! Karen, agora toda embonecada para a noite, estava diferente da Karen burocrática. Uma bem vinda transformação. Dançamos, comemos, falamos, dançamos mais um pouco e por volta da uma da manhã ela sugeriu que fôssemos embora. Eu concordei. Valeu a pena. Finalmente choveu na minha horta depois de dois meses de estiagem!

Aprendendo outra cultura enquanto idéias pré-concebidas se desvanecem, é a essência da grande riqueza que se adquire viajando pelo mundo.


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