Mandriões, menestréis, gaudérios e escoteiros

Publicado em: 17/03/2012

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

Era uma vez… Uma Ilha Encantada, os montes  floridos, os “marzões” navegáveis e meninos livres… Livres como os quatro ventos dos nativos ilhéus… Era uma vez… Lá pelos idos anos  de “1950” quando los hermanos platinos – uruguaios e argentinos vinham com seus pequenos iates e ganhavam abrigo, agasalho e hospitalidade naquela mini Cosmópolis: a “enseada feliz” chamada Rita Maria. Ali aportavam, também, grandes  cargueiros europeus, asiáticos e  outros sul americanos em busca de nossos pinheirais araucarianos… Ali vinham os gregos buscar nossa farinha de mandioca em quantidades fantásticas… “Y nosotros, pibes pra lá de espertos, ganávamos mucha plata de estos pueblos mui amigos”. Cessada a trágica segunda guerra mundial e chegado o fim do longo período da ditadura getulista, sobreviviam somente Perón y Evita…

Mas, éramos felizes? Sim, infinitamente felizes… Ricos de alegria e de liberdade, de sol e de chuva que se alternavam entre as cruéis lestadas e o enigmático cocoroeste – vento terral, nascido lá nas serranias continentais a oeste da Ilha Encantada e que vinha gelado lambendo as fímbrias da terra.

Isso, porém, não era nada, porque o vento mesmo, vento pra valer era a tribuzana do Vento Sul que tanto atribulou o poeta Cruz e Sousa como o papo amarelo – nordestão brabo que recebeu esse apelido numa alusão ao ex-interventor Nereu Ramos que havia recebido essa alcunha, dita carinhosa, desse povo irreverente que bota apelido em todo mundo, mesmo nos mais ferozes ditadores…

Mas a vida era assim mesmo, cheia dos altos e baixos – ainda bem que os altos eram sempre mais altos, já os baixos, sai de baixo!

A luz Elétrica? Só para privilegiados… Iluminação domiciliar? Só com pomboca… Pobre comer galinha? Só, quando um dos dois estava doente, ou então quando alguém surrupiava uma penosa,no galinheiro de algum “dotô”…

E os escoteiros?

Tinha o Grupo do padre Itamar da Catedral Metropolitana; o de Terra do professor Rosa da Escola dos Artífices; e os Escoteiros do Mar, do oficial de Marinha Lázaro Bartolomeu. Alguns grupos eram só de meninos da elite.

Outros, de famílias menos abonadas ou mesmo muito pobres, esses não tinham vez. Não tinham até que na década de 1960 surgiu o Grupo Escoteiros do Mar de Florianópolis que mais tarde virou Grupo não patrocinado e aberto com toda aquela liberdade que muitos povos  sonham.

Pobres, mas muito imaginativos… Seus lampeões de querosene era feitos de lata de azeite ; os utensílios de mesa eram canecas, pratos, panelas e frigideiras feitos de latas de conserva nos quais púnhamos alças ou cabos. E nesse clima, mesmo os meninos de famílias ricas – que em suas casas,faziam refeições em finos pratos de porcelana inglesa – saboreavam sopas de “entulho” feijoadas de “vale tudo”, muita polenta com farinha grossa de milho e muito, muito pirão d’água com peixe, peru do mato e ovos, muitos ovos, tais quais verdadeiros gambás.

Pão? Um luxo que o Chefe Luiz equilibrava com seus famosos bolinhos… Café?Coador fino e bonito? Nada… café cabeludo… Forte, saboroso e sadio… Tinha pais desses tais que só se interessam pelo filho raramente que se horrorizavam…

Escoteiros do Mar de Florianópolis tinham alma de guadério? Talvez, tal a liberdade e auto confiança de ser homem em formação. Mandriões?É possível, porque embalados pelos quatro ventos flanavam em pesados batéis, nos marzões das duas baías: Sul e Norte. Menestréis? Era só ver o Janga Uriarte, lá de Blumenau , com seus dois filhos João Mário e Luiz Eugênio em férias em nossa sede, mais nossos escoteiros, fazendo serenatas a pano safo, com o cancioneiro nacional… Luar do Sertão e Carinhoso é o que não faltava; e outras obras primas de nossos poetas e compositores nacionais.

Por que assim? Porque o Movimento Escoteiro Universal forma seus meninos/homens, desinibindo-os, exercitando-os, transformando-os. Vai daí que muita gente que tentou cooptá-los ideológica ou politicamente nada conseguiu, pois as convicções de que eram imbuídos, os transformavam em seres pensantes e de objetivos muito claros: “serei o que buscarei ser, sem necessidade de me imiscuir em assuntos que infelicitaram, infelicitam e infelicitarão no futuro, pois o extremismo político é uma praga.

Talvez por isso, houve quem me taxasse de retrógrado, careta e adverso à politização. Mas eles estavam enganados, pois dirigente escoteiro, no olho da tempestade, observava e calava, mas tansmitia de forma cuidadosa o que estava para vir a partir de 1960.

Era assim o nosso caminhar, e nossos meninos iam ultrapassando cada fase e vivendo os seus momentos sem os riscos de uma juventude que foi imolada em uma luta covarde e fratricida que ainda hoje mostra suas cicatrizes. Por outro lado, os de bom senso estão ajudando a construir o caminho de um novo tempo.

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