Manezinho da Ilha, Certificado de Origem

Publicado em: 04/11/2012

Sobre identidade cultural e o culto aos mortos

Há cada três, quatro meses vou ao Jardim da Paz renovar as flores do túmulo do meu pai. Os intervalos coincidem com algumas datas significativas. Natal e Dia dos Pais, naturalmente, e também o aniversário de sua morte e o do seu nascimento. Hoje, 24 de março, ele faria 84 anos, então fui até lá, cumprir meu compromisso filial. Estou sem carro, de modo que tô de ônibus. E, “porque hoje é sábado” e os horários ficam rareados, ao chegar ao terminal pedi a um senhor de uniforme azul e cabelo pintado de preto, que me indicasse a linha que leva ao Jardim da Paz.  Foi o suficiente. – Morreu alguém da sua família, foi?, a mão já apoiada sobre o meu ombro e o olhar pesaroso (desandei a rir). – Meu pai, eu disse. Há quatro anos! Hoje seria aniversário dele. Vou lá trocar as flores. – Tadinho! Meus pêsames! Ele disse apontando para o ônibus, linha Saco Grande via João Paulo, parado na plataforma.  Agradeci e me alojei perto da porta. Ele voltou: – A senhora sabe onde fica? O sorriso emoldurado por dois caninos de ouro.
O ônibus seguiu em direção ao bairro, uma profusão de mansões, casas pequenas, condenadas, espremidas entre os paredões e os prédios em construção que contornam a Baía e o que restou do mangue. Aproximadamente a uns duzentos metros do Cemitério há um ponto de ônibus. Preparada para descer, puxei a campainha, mas o motorista passou direto. Eu protestei, preocupada em ter que voltar todo o trecho a pé. O ônibus parou exatamente em frente ao portão do cemitério.

– Vai lá, vai minha filha! Vai rezar pro teu paizinho! Era o seo Alcides, o nome dele, me olhando pelo espelho interno! É por essas e por outras que eu fico indignada quando alguém diz: – As pessoas daqui são fechadas! Fechadas uma ova!

O nativo autêntico, o mané com Certificado de Origem como é o caso do seo Alcebíades, é “dado”, é solícito, é hospitaleiro. Nem bem a pessoa chega à sua casa, ele já sai oferecendo seu café ralo, já vai fazendo confidência e, principalmente, já vai especulando tudo sobre a tua vida. Te aprecata!

Nesse tempo em que “manezinho da Ilha” virou grife e todo mundo se outorga o título de “Mané”, é preciso prestar atenção: a pessoa pode falar “olhólhó!” e te chamar de “quirido”, pode até apresentar a certidão de nascimento, mas… Fez doce ou arregô não é “legito”!

*Alcebíades é nome fictício, escolhido por aproximação ao verdadeiro nome do dito cujo.

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