Mar morto

Publicado em: 09/12/2007

Recentemente, numa conversa informal com uma moradora, falávamos sobre a antiga paisagem costeira da área central de Florianópolis, que antes de 1974 possuía o mar respingando as paredes do Mercado Público. Ela me revelou que, em relação ao cenário urbano atual, sentia-se pesarosa com a construção do Elevado Dias Velho, apesar de considerá-lo uma obra de relevância para a cidade.
Por Marilange Nonnenmacher 


Mercado Público de Florianópolis. Acervo: IHGSC

Antes, pelo antigo caminho que percorria diariamente, vindo da Beira-Mar Norte para o Continente, ela podia contemplar o Mercado público e o centro histórico da cidade, momentos que proporcionavam recordações de seu pai, acerca, de suas palavras “apocalípticas” que denotavam o seu inconformismo em relação ao avanço da cidade sobre o mar.
Ele repetia – disse ela – que o mar estava sendo condescendente, compreensivo – ou ainda melhor – generoso com Florianópolis, deixando-se invadir pela cidade. Para ele, isso teria um trágico fim. O mar revolto exerceria seus direitos e retomaria o espaço por direito seu. Como outrora, mar e Mercado passariam acariciar-se novamente.
A devoção afetuosa e a resistência do velho morador para aceitar as mudanças, tomando o mar como se fosse uma divindade transigente aos atropelos humanos, me lembra uma das muitas obras de Jorge Amado, chamada “Mar Morto”. Ela tem o cais de uma cidadezinha do litoral baiano como cenário para a trama. A cidade de espaços sociais bem delineados acomodava os habitantes mais prósperos nas “ruas de cima” e os grupos de poucas posses – como pescadores, vendedores, mendigos, prostitutas, enfim aqueles que vivem as margens da sociedade – nas “ruas de baixo”, aquela de proximidade com o cais de porto.
O enredo é permeado de intrigas e confusões entre as duas classes sociais, mas o vigor da obra concentra-se na devoção dos habitantes das “ruas de baixo”, principalmente dos pescadores, no poder do mar, simbolizado por uma divindade do panteão africano, Yemanjá.
Ao mesmo tempo, o sagrado também rondava essa região. Tínhamos uma representação divina nas proximidades do cais! Diferente da representação africana, comum ao litoral baiano, tem-se ainda em Florianópolis a Igreja de Nossa senhora do Parto, localizada na Rua Conselheiro Mafra, inaugurada em 1861. Ela foi construída no lugar antes conhecido como Colina da Vista Alegre, no Bairro da Figueira. Tratava-se de um espaço voltado às sociabilidades, onde os moradores da Figueira se reuniam, tanto para realização dos ritos como para os festejos da irmandade. Atualmente, essa Igreja avizinha o prédio da Prefeitura Municipal de Florianópolis, onde se localiza a Secretaria da Educação.
Esse templo esteve desativado por muitos anos. Recentemente, passou por um processo de restauração e voltou parcialmente às atividades. Porém, o espaço religioso está bem diferente de sua aparência original, em decorrência de uma ampliação sofrida em sua nave e a inserção de uma torre central, tudo isso na década de setenta. Trata-se, portanto de um templo obscurecido no cenário urbano de Florianópolis, por encontrar-se recuado no terreno e cercado pelos gigantescos edifícios. Após sua re-inauguração, em junho de 2000, essa Igreja foi saqueada e algumas de suas imagens, que fazem parte do acervo histórico da cidade, foram bastante danificadas. Acreditem!
Bem, como Yemanjá de “Mar Morto”, Nossa Senhora do Parto – apesar de sobrepujar suas atribuições de santa, voltada às parturientes – também estava bem próxima do mar e, quiçá, em auxílio às esposas dos protegidos de São Pedro, protetor dos pescadores. Todavia, o mar daqui, aquele do qual essa Santa avistava e cuidava, do qual era devoto o antigo morador, aquele mar que beijava as paredes do Mercado Público, esse… realmente, está morto. 
 


{moscomment}

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *