Maratona histórica do Farol dos Naufragados ao Aeroporto

Publicado em: 09/06/2012

Tributo ao Chefe Escoteiro Paulo Roberto Guimarães

O movimento dos escoteiros do Mar de Florianópolis, a exemplo de seu modelo – a Marinha do Brasil – tem cultos estabelecidos nas suas tradições. Um deles é o costume de na Semana Santa, a partir da quinta-feira pela manhã ir até a Vila do Pântano dos Sul, independente de condições atmosféricas ou de condução. As vezes acontecia de alguém que estivesse de carro ajudar no transporte das mochilas mais pesadas até a entrada da picada do Costão Oeste onde começava nossa caminhada. O primeiro alto horário, aquando parávamos para descansar, era o Rio das  Pacas, com sua foz murmurando na prainha de areia fina, antes de se juntar ao oceano. Feito um almoço leve e reparados alguns incômodos passageiros, seguíamos para a praia do Saquinho onde revisitávamos nossas amizades, habitantes de um comunidade especial e diferente de toda a Ilha  que ali residia.

Ali sempre havia um peixe frito com pirão de jacuba e um café nativo bem forte e revigorante. A caminho, sempre em trilhas apertadíssimas, mesmo antes de chegarmos ao Pastinho já tínhamos sido pressentidos por seus moradores.

Meia tarde, outro café oferecido por nossos amigos, agora com rosca de polvilho e os bolinhos de fubá que fazíamos, para renovar nossas amarras com aquela gente extraordinária. Mais caminhada longa e eis que surge a praia da Ponta dos Naufragados: linda , exótica e misteriosa ,com sua diminuta colônia de pescadores de onde saíam grandes canoas bordadas, para pescar no Atol das Ilhas Moleques do Sul e outras do Arquipélago do Mar da Pinheira. Satisfeitas as efusões de lado a lado, antes das seis horas da tarde nos apresentávamos formalmente na Vila da Marinha, onde um destacamento da Capitania dos Portos de Santa Catarina, dava serviço no centenário Farol de Naufragados. Ali estávamos em casa, hospedados que éramos em um dos belos chalés da Guarnição e aí começava a troca de gentilezas: nossas guloseimas da cidade e alguns presentes para senhoras e senhoritas e notícias da vida nacional.

Tudo corria muito bem até que o Chefe Paulo Roberto Sampaio Guimarães me informou que logo no outro dia, sexta-feira santa, teria que estar cedo para embarcar em aeronave comercial que o levaria ao Rio de Janeiro. O motivo era forte: seu irmão Luiz Paulo Guimarães receberia na segunda feira-feira seguinte ao domingo de Páscoa o Espadim de Guarda Marinha, onde estariam seus pais, parentes e amigos.

Decisão tomada, passei a Chefia ao meu Imediato e na manhã seguinte, bem cedo, após refeição rica em carbo-hidratos, começamos a caminhada em direção ao Aeroporto. O voo da Cruzeiro do Sul programado para às 15 horas nos obrigava a chegar com pelo menos uma hora de antecedência.

Após a primeira parte da caminhada que no levou até a bica d´Água da Caieira do Ribeirão da Ilha, refeitos com a parada para descanso acionamos o passo escoteiro no lugar da caminhada, até chegarmos ao aeroporto por volta das 13 horas.

Assim, após mais de quatro horas de autêntica maratona, cumprimos o compromisso com tempo de sobra para os procedimentos da viagem do chefe Paulo Roberto.

Dessa caminhada guardo lembrança de um episódio interessante: fomos acompanhados por um pequeno cachorrinho, que por iniciativa própria seguia meus passos e que foi fiel companheiro também no retorno quando me encontrava sozinho naqueles sertões que eu tanto amava e amo pela beleza rústica da natureza e pelo carinho daquela gente singela.

No domingo de Páscoa, após o cerimonial da Bandeira cada um se recolheu para seu momento ecumênico. E como a lestada ameaçava nosso conforto fizemos o retorno indo até o ponto de ônibus na Vila do Ribeirão da Ilha que nos trouxe ao centro da cidade em menos de duas horas.

A aventura de termos feito a pé, em quatro horas, o trajeto do Farol dos Naufragados ao Aeroporto Hercílio por muito tempo foi relembrada pelo Chefe Paulo Roberto Guimarães que orgulhosamente dizia que jamais pensara em realizar tal proeza, pois que no seu entender era uma superação de sua acomodação de habitante urbano.

Em todos os lugares onde está, eu sei que ele agora descansa em merecida paz, embora a saudade seja grande. Enquanto eu, que sei como ele gostaria que fosse, continuo por aqui pilotando os voos da minha imaginação fértil e feliz com as recordações gostosas, de todos nós, meninos, que partilháramos cada pedaço de pão, café cabeludo e uma acolhedora barraca, sob um luar atlântico de muitos acantonamentos e ou acampamentos, na Ponta dos Naufragados.

1 responder
  1. Gutemberg says:

    …e a gente vai junto, a cada letra lida, um passo em companhia do narrador em sua história que nos empolga e emociona pela emoção que carrega.

    SAPS e Bons Ventos de todos do 102º SP Grupo Escoteiro do Mar Velho Lobo!

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