Marconi foi ‘hackeado’ em 1903

Publicado em: 06/10/2012

Acha que os hackers são apenas bandidos do mundo virtual e que surgiram junto com os computadores e a Internet, certo? Errado e errado! Conheça uma história de 1903, quando foi registrada a primeira invasão de um sistema de comunicação que prometia enviar mensagens a grandes distâncias de forma segura. A primeira vítima desse hacker pioneiro foi o suposto inventor do rádio, Guglielmo Marconi, que estaria “enganando o público”. Vamos a história completa. Em junho de 1903, o físico John Fleming, funcionário de Marconi, estava preparando uma demonstração dos potenciais da comunicação sem fios para uma grande plateia no auditório do Royal Institution, em Londres.

Diante da plateia, Fleming estava a ajustar um enorme aparato para demonstrar uma tecnologia revolucionária e maravilhosa:  um sistema de comunicação de longa distância sem a necessidade de fios. O objetivo era mostrar pela primeira vez em público que mensagens de código Morse poderiam ser enviadas sem a necessidade de fios a longa distância.  A cerca de 500 km dalí, Marconi estava a preparar-se para enviar um sinal para Londres de cima do topo de um penhasco na cidade de Cornwall, no litoral da Inglaterra.

Antes de começar a demonstração e diante do público, o aparato que Fleming estava a ajustar começou a receber uma mensagem inesperada. No início, era repetida uma única palavra: “Rats” (Ratos). Então, a mensagem evoluiu para um poema jocoso acusando Marconi de “enganar o público”. O público percebeu de imediato que algo não planejado estava a  acontecer, e a demonstração de Marconi foi arruinada pelo sinal de origem desconhecida. Quem era o hacker que havia invadido o sistema revolucionário de envio de código Morse? Como é que aquela mensagem chegou lá? E por que?

Tudo começou em 1887, quando Heinrich Rudolf Hertz provou a existência das ondas eletromagnéticas previstas matematicamente por James Clerk Maxwall em 1865.

Naquele tempo, o método de geração de ondas eletromagnéticas era assim:

Descarregar um condensador em dois eletrodos tão próximos que o ar entre eles se ionizaria gerando uma centelha. Milagrosamente, outra centelha se formaria entre outros dois eletrodos colocados a alguns metros de distância. Ou seja, as ondas eletromagnéticas geradas nos dois primeiros eletrodos induziram uma corrente no segundo par de eletrodos.

Marconi percebeu que rajadas longas e curtas de energia poderiam representar os elementos do código Morse, portanto poderiam transportar mensagens utilizando as recém descobertas “ondas hertzianas”. Assim nasceu o telégrafo sem fio. Marconi e a sua empresa estavam na vanguarda da tecnologia da época.

Marconi dizia que as mensagens enviadas pelo seu método sem fio eram seguras e privadas.

“Eu posso ajustar os meus instrumentos de uma maneira que nenhum outro instrumento poderia interceptar a mensagem”, bradava Marconi no jornal londrino St. James Gazette em fevereiro de 1903.

Hoje, qualquer um sabe que as transmissões de rádio podem ser facilmente interceptadas por qualquer receptor na mesma frequência, mas isso não era tão óbvio naquela época quando pouco se sabia sobre as ondas de rádio.

Em parte, foi por isso que as coisas não estavam a sair conforme Marconi e Fleming haviam planejado para aquela tarde chuvosa no Royal Institution em Londres. Primeiro, Arthur Blok, assistente de Fleming, com ouvidos bem treinados, percebeu um titilar no meio do zumbido que a geringonça fazia. De ouvido ele captou as letras R-A-T-S, transmitidas algumas vezes. Então, a mensagem mudou e tornou-se mais clara e pessoal:

“There was a young fellow of Italy, who diddled the public quite prettily” (Havia um jovem da Itália, que enganava o público de forma esplêndida), uma acintosa modificação de um famoso poema de Shakespeare. A mensagem era maravilhosa que supostamente poderia enviar e receber mensagens de forma segura.

O sinal misterioso desapareceu momentos antes dos sinais de Marconi transmitidos desde Cornwall fossem recebidos diante da plateia.

A demonstração continuou, mas o estrago estava feito. No dia seguinte, o jornal “The Times” publicou artigo sobre a demonstração de Marconi dizendo “se alguém conseguiu invadir os sistemas sem fio de Marconi daquela maneira, fica claro que o sistema não é nada seguro como Marconi tem dito”.

Marconi ficou furioso, para dizer o mínimo, mas ele não respondeu diretamente às críticas publicadas nos jornais. Pessoas próximas informaram que ele declarou na época “eu não vou mais fazer demonstrações para ninguém que tenha dúvidas sobre o sistema”.

Fleming, no entanto, fez o papel de fiel-escudeiro de Marconi. Publicou uma carta fulminante no “The Times” dizendo que “o ocorrido foi um insulto contra a tradicional Royal Institution” e pediu para os leitores o ajudarem a descobrir quem era o culpado. Quatro dias depois, uma carta de confissão foi publicada pelo “The Times”. O autor justificava o seu ato de mostrar os buracos na segurança do sistema de Marconi pelo bem do interesse público.

O autor da carta era Nevil Maskelyne, um mágico britânico de 39 anos. Ele usava o código Morse para se comunicar com os assistentes de palco durante os seus números de “leitura da mente”, sem que a plateia percebesse.

Maskelyne, entretanto, era muito interessado na tecnologia sem fio, e era um autodidata. Ele também usava as ondas hertzianas para gerar ignição de pólvora como se fosse um passe de “mágica”.

Em 1900, Maskelyne enviou mensagem sem fio para um balão a 16 km de distância. Mas as suas ambições de ganhar dinheiro com as ondas eletromagnéticas foram frustradas pelas patentes muito abrangentes de Marconi.

Além de Maskelyne, a tecnologia inovadora proposta por Marconi afetaria diretamente a indústria ligada ao telégrafo com fio.

As companhias de telégrafo possuíam grandes linhas terrestres e submarinas para envio de mensagens para quase todos os continentes. Além disso, elas mantinham uma frota de navios com equipes especializadas na instalação e manutenção dos seus cabos submarinos.

O telégrafo sem fio de Marconi representava uma grande ameaça à hegemonia da indústria “com fio”, e certamente eles não iriam assistir ao seu império a ruir de braços cruzados.

A Eastern Telegraph Company – ETC mantinha um centro de comunicação com cabos submarinos que ligavam à Indonésia, Índia, África, América do Sul e Austrália. Ao tomar conhecimento de que, em 12 de dezembro de 1901, Marconi tinha enviado uma mensagem transatlântica entre Estados Unidos e Inglaterra, a ETC contratou Maskelyne para realizar operações de espionagem sobre os planos de Marconi.

Maskelyne construiu um mastro de 50 metros para tentar interceptar sinais que a Marconi Company estava a enviar como parte do negócio muito promissor de um sistema de mensagens para navio-navio e navio-costa.

No artigo publicado no jornal “The Electrician”, em 7 de novembro de 1902, Maskelyne  revelou a falta de segurança no sistema de Marconi. “Eu recebi mensagens de Marconi com um sistema (antena) de 50 metros, instalado no litoral. Uma vez que o mastro foi levantado, o problema não foi interceptar os sinais, mas como lidar com o enorme excesso de energia…”.O sistema não era para ser tão facilmente interceptado. Marconi patenteou a tecnologia capaz de sintonizar um transmissor sem fio para um comprimento de onda específico. Esta sintonia, segundo Marconi, significava que canais confidenciais poderiam ser criados.

Hoje qualquer um sabe que isso não era verdade, mas não era óbvio naquela época, Maskelyne mostrou que usando um receptor não sintonizado ele podia escutar as transmissões supostamente seguras de Marconi.

Além de mostrar que a interceptação das mensagens era possível, Maskelyne queria chamar a atenção para o fato de que além de insegura, a maior falha desta nova tecnologia era sua suscetibilidade à interferência. Então, ele montou um transmissor simples acoplado a um batedor Morse na casa do seu pai que ficava próximo do Royal Institution. A mensagem que ele enviou naquela tarde poderia ser facilmente encoberta pelos sinais que Marconi enviou de Cornwall, então ambas as mensagens seriam interferidas se fossem transmitidas ao mesmo tempo.

Como as mensagens não se sobrepuseram, o dano causado foi apenas no ego de Marconi e Fleming.

Nos dias de hoje, os hackers continuam a mostrar que as nossas tecnologias hi-tech continuam com brechas de segurança, exatamente como Maskelyne mostrou há mais de 100 anos. Mas o rádio continua a ser o meio de comunicação mais simples, popular e democrático já inventado. [Fonte: New Scientist]

Colaboração de Ivan  Dorneles Rodrigues – PY3IDR | [email protected] | www.memoriallandelldemoura.com.br

 

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