Mário Lago e o humor, filão inesgotável do rádio na década de 50

Publicado em: 15/09/2005

Todo estudioso da história do rádio brasileiro quando pesquisa o humor como  uma de suas mais poderosas vertentes, certamente vai chegar no maior fenômeno do gênero, a legendária  PRK-30, de autoria de Lauro Borges e Castro Barbosa.
Por Chico Socorro

Mário Lago, irreverente por natureza, destacou-se também nessa seara. Na década de 50, os programas de auditório conseguiam grandes audiências e serviam também para expressar a perplexidade do povo em face de mudanças sociais que o país vivia. Basta lembrar do Governo de JK, quando Juscelino prometia fazer o Brasil crescer 50 anos em 5.

Na Nacional, dava-se destaque ao samba, em contraposição à música estrangeira que começava a ganhar força. Nesse contexto, o humor era usado para satirizar a música estrangeira. O apresentador do PRK-30, Maurício Chevrolet, parodiando Maurice Chevalier,  por exemplo,  anunciava solenemente, num francês  de arrepiar “—Ma chérie, fanzocas do Brasil, je viens chanter la chanson de Larmatine Babô…”.  Ou então, um dos personagens do programa, uma professora, cantava  samba em inglês e traduzia para a língua de Shakespeare nossos provérbios, desta forma: “—-Dog qui make au-au, dont morde nobody…”


Mário Lago aos 88 anos.

Foi no meio desse clima de zorra total  que Mário Lago lançou e começou a produzir o programa Marlene, meu bem.  um grande sucesso entre 1952-1954 e que tinha como estrelíssima a cantora Marlene, que viria a ser coroada, em 1959, Rainha do Rádio, desbancando o reinado de Emilinha Borba.

Vale a pena reproduzir na íntegra a hilariante fala de Mário no programa de apresentação em que ele entra em cena como se tivesse levado uma surra. Choroso, Mário explica ao locutor:

“—– Este estrago que você está vendo foi uma surra, e das boas, sabe… Imagine você. A rádio me encarregou de fazer esse programa. Eu fui pra casa e comecei a pensar no que ia escrever. Comecei a passear, que eu só sei pensar passeando. Eu só tinha o nome do programa Marlene, meu bem. Em meia hora, é claro, eu já estava pregado, né? E nada de vir uma idéia para o programa. O máximo que eu fazia era…. suspirar, já nessa altura de raiva e de cansaço. Foi quando a patroa entrou  inesperadamente no quarto… Não tendo mais nada pra me atirar em cima, ela acabou atirando o nosso filho mais novo. E como pesa aquele anjinho…”

O auditório veio abaixo de tanto rir com a cena.

Em seguida, sob o delírio do auditório, Marlene começa a cantar.
E foi a partir desse programa que começou a rivalidade entre os Fãs-Clubes de Marlene e Emilinha. Com um detalhe: a Rádio Nacional encampou essa rivalidade e a explorou comercialmente durante anos.

Finalizamos este artigo com uma frase de Mário Lago que retrata bem o seu espírito irreverente:  “Se você levar a vida muito a sério, ela vai ficar chocada…


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