Mário Lago: o Samba precisa respeitar a gramática

Publicado em: 28/09/2005

“Oh, senhores letrados, deixem o samba divorciado da gramática, deixem o samba na boca da gente do morro, não mudem o samba do  morro do Estácio para o Catete [bairro de classe média, zona sul do Rio de janeiro]”.
Por Chico Socorro

Essa frase faz parte da crônica “O samba e a gramática”,  de autoria do jornalista Francisco Guimarães, publicada nos anos 30, na qual ele defende a linguagem popular, mesmo que fira a  sintaxe gramatical.

Mário Lago faz parte de uma  geração de compositores populares que tinham estudado, ao lado de Noel Rosa, Fernando Lobo, Custódio Mesquita, Ary Barroso, entre outros. Alguns deles  tinham até freqüentado a Universidade.

Mário  se recordava vivamente das lições  de seu professor de português, Antenor Nascentes do Colégio Pedro II. E o uso do português correto, sem erros gramaticais, era um dos motivos de suas  desavenças com os  parceiros musicais.

Vale a pena ilustrar uma dessas discussões sobre o português, relatando um caso ocorrido com a marcha “O que é que me acontecia”, composta em parceria com Benedito Lacerda em 1939 e interpretada pelo cantor Almirante, cuja letra é reproduzida a seguir:

Se numa noite sem lua
sozinha na rua
fazendo não sei quê
eu lhe encontrasse e chamasse,
agarrasse, abraçasse
e beijasse você,
responda sem mentira e hipocrisia:
o que é que você fazia?

A música já estava pronta, liberada  pela censura e Mario levanta questão:

“—Benedito, isto aqui está errado. O certo é ”eu a encontrasse”…
Mas o parceiro não aceitou a explicação e para encerrar o assunto argumentou:
“—- Parceiro, que história é essa? Você já viu professor de gramática num bloco de sujo, cantando música de carnaval?

Não houve jeito, Mário acabou concordando  e a letra ficou como estava.

Finalizamos o artigo de hoje com a letra de  Não tem Tradução, de Noel Rosa que focaliza também a questão do uso correto do português no samba:

“A gíria que o morro criou
bem cedo a cidade adotou e usou
tudo aquilo que o malandro pronuncia
com voz macia é brasileiro
já passou do português “.


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