Mariquinha acabou na zona

Publicado em: 16/09/2007

Nos anos 40 as meninas aprendiam desde cedo padrões de comportamento que eram considerados a base de uma boa educação cristã. Eram quase todas muito recatadas, tímidas. Respeitavam, obedeciam e até temiam os pais que exerciam uma vigilância constante.
Por Jamur Júnior

Quando a menina apresentava sinais de quem estava se interessando por algum rapaz com olhares apaixonados, era acionado o alerta máximo. O namoro se desenvolvia em etapas. Primeiro olhares furtivos, depois troca de cartas ou conversas rápidas. Com o passar do tempo o namoro chegava perto da casa. Mais um tempinho e já podia entrar, sentar ao lado dos pais da moça.
Mais para frente já era possível pegar na mão. Beijinho, só na face e numa fase de pré-noivado. Nada além disso acontecia.  Eram raros os casos de maior intimidade durante o namoro. Quando os impulsos eram mais fortes que os padrões de comportamento da época, acontecia um namoro com mais liberdade e quase sempre acabava mal.
Foi o que aconteceu com Mariquinha, que ouviu promessas de amor não cumpridas e acabou se perdendo no rumo de Paranaguá. Nessa época, Paranaguá era uma das maiores cidades do Paraná, e o principal ponto de convergência dos habitantes da região litorânea. Mariquinha, na cidade grande, sentiu-se livre das amarras familiares e caiu na farra.
Acabou na zona. Ali, as noites eram animadas com a presença de muitos marinheiros que falavam idiomas diferentes e praticavam a mesma coisa. Era ali, também, que homens mais abastados da sociedade local, disputando com marinheiros nacionais e estrangeiros, praticavam o amor livre. Esse era o local onde os machões domésticos, davam vazão às fantasias sexuais que abominavam em casa.
A passagem por essas “casas de mulheres” como eram conhecidas, sempre obedecia a um roteiro. Na chegada uma olhada para descobrir alguém interessante, um convite para um drinque, um bolero de rosto colado e em seguida iam rumo ao quarto. O de Mariquinha era pequeno. Num canto, uma cama de solteiro coberta por uma colcha de cetim vermelho. No lado oposto uma penteadeira, com muitos bibelôs, um vidro de, Leite de Colônia, um potinho de Pó de Arroz Lady, um rolo de papel higiênico Tico-Tico, algumas toalhas e uma grande bacia com jarra esmaltada que fazia o papel de bidê.
Quando Mariquinha chegou encontrou o mercado em baixa. A guerra havia reduzido o numero de navios no Porto e a freguesia sumiu. O recurso foi disputar alguns soldados e oficiais das Forças Armadas. As meninas menos atraentes, ficavam com os “praças” e as mais bonitinhas conseguiam um oficial. Mariquinha deu sorte. Conquistou o coração apaixonado de um major-aviador.
Em pouco tempo deixou a zona e voltou para sua cidade à beira mar onde passou a levar uma vida tranqüila, cheia de presentes e muitos agrados do major da aeronáutica. Paixão e ousadia dominavam o aviador que fazia patrulha no litoral sul e de vez em quando descia com seu avião na praia de Guaratuba para visitar a amada.
Quando a maré estava alta, realizava vôos sobre a praça e atirava presentes para Mariquinha. Sempre acompanhado de um sargento, o major não ficava uma semana sem ver sua amada Mariquinha. Enquanto o aviador cruzava os céus, Mariquinha aterrissava em outras camas. A paixão era tanta que acabou comprando uma casa para garantir seu futuro. Na escritura colocou condições para dificultar sua venda.
Deixou como procurador o sargento amigo que sempre o acompanhava. Mariquinha não ligou para isso. Não podia vender mas, era dona da casa. Terminada a guerra o major foi transferido e promovido para um alto posto no Rio de Janeiro.  O sargento deixou a carreira militar , estudou direito, foi juiz e destacado membro da mais alta magistratura em Santa Catarina.
Mariquinha nos anos 60, com rosto mostrando o sinal dos tempos nas rugas pronunciadas, conseguiu do ex-sargento, autorização para vender a casa. Com dinheiro recebido na venda do imóvel, retornou a Paranaguá, onde comprou uma “boate”.
 


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