Maurício Amorim, um machão à moda antiga

Publicado em: 13/08/2013

Maurício Amorim é do tempo em que o primeiro prédio da cidade, o Ipase, ainda estava em construção, o Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) chamava-se Cine Odeon e o hidroavião aterrissava no Miramar.

Guarda boas recordações da cidade antiga, da festa do pessegueiro na Praça Pereira Oliveira, dos agitos do Clube Paineiras, da Boate Capelinha, do Tritão. Um festeiro incorrigível dos tempos da juventude transviada, um manezinho da Ilha diplomado, embora nascido no Rio Grande do Sul por acaso. “Nasci em Iraí, onde morei apenas três dias, e até hoje pago por isso”.

Divorciado, muito bem instalado num amplo duplex no centro da cidade, está vivendo a vida que sempre pediu a Deus. “Aproveito parta tirar o atraso, existe uma fartura de mulher na cidade, o que não havia na minha época, há 30 anos. Hoje pode parecer balela, mas sou melhor em tudo, em tudo mesmo.” Marqueteiro de um machista à moda antiga, confessa que não quer mais compromisso com casamento. “Mulher pra mim é igual ao Brasil com Z… nunca mais”. Um aposentado com vida mansa, integrante da confraria dos barrigas proeminentes, que divide o seu tempo entre recarregara pilha exposto ao sol na Joaquina e o dominó de todos os dias na sauna do Clube Doze de Agosto.

A identidade do Rio Grande do Sul, onde foi registrado, exibe sem nenhuma ponta de orgulho. A família é do Ribeirão da Ilha, mas levou azar que o pai era delegado em Itapiranga, extremo Oeste catarinense. Por falta de recurso naquela cidade, a mãe atravessou o rio Uruguai para parir esse gaúcho do Ribeirão. “Fiquei só três dias lá”, justifica.

Confessa que já fez de tudo um pouco na vida. Foi diretor de Turismo de Florianópolis, em duas gestões e, mais tarde, subsecretário de segurança política, para alegria da legião de amigos boêmios que gostavam de aprontar nas noites festivas. “ Acidade sabe quem eu sou. Vou do Mocotó ao Palácio do Governo abrindo todas as portas”.

Desde muito cedo, com o irmão Mauro Amorim, teve que trabalhar duro para ajudar a mãe que ficou viúva. Do primeiro emprego, no cartório da Ciloca Luz, a persistência e a determinação de ser alguém na vida, até tornar-se advogado. “Foi difícil ocupar o espaço que tenho hoje”. Nos anos 60, juntamente com um grupo de vinte e dois amigos, cansados com as mesmices das festas sociais dos clubes 12 de Agosto e Lira T. C., decidiram fundar um clube que tivesse a cara deles. Surgiu o Paineiras, um reduto exclusivo para solteiros, onde Amorim conviveu durante dez anos, e foi presidente em três oportunidades.

– O Paineiras foi responsável pela mudança de comportamento na cidade. Na época, só se entrava no Cine São José de gravata e não se dançava na quaresma por falta de atividade nos clubes. Aos olhos da sociedade conservadora, a criação do clube era prenúncio de bandalheira, barra-pesada, prostituição. Os pais olhavam aquele movimento com reservas e durante muito tempo as moças não freqüentavam o ambiente. Com a primeira festa social, no dia seguinte, foi sumariamente excomungada na missa das dez pelo Padre Bianchini. O grupo foi classificado como herege e baderneiro.

A partir dessa época os tradicionais Lira e Clube Doze passavam também a promover bailes durante a quaresma, abolindo também o paletó e a gravata em suas atividades sociais. ”O Paineiras nasceu reagindo a uma norma da sociedade, assim como ocorreu com a “Orchestra Philarmônica Destherrense”, que teve o maiô proibido como fantasia, pela Secretaria de Segurança Pública. No dia seguinte, os componentes desfilaram em traje a rigor e descalços, num deboche às determinações do secretário”.

Maurício Amorim tem a consciência de que precisava acertar as contas com Deus, não apenas uma, mas duas vezes. Em 1974, ele arrendou a Boate Capelinha, que era propriedade dos dons do Tritão, Fábio e Zé Ávila. Instalar uma boate na igreja que foi vendida pelo padre atiçou a ira do clero. Uma comissão foi ao encontro do prefeito, não apenas para protestar contra a abertura da nova casa, mas também pelos desenhos do arquiteto Paulo Rocha, estampando anjos com trombetas nas paredes.

– A noite de Florianópolis se resumia no Tritão. Foi o grande bar da terra, dividindo depois fama com a Capelinha, que foi precursora das boates na cidade.. Era uma beleza até as brigas que aconteciam. Às três horas da madrugada eu resolvia dançar tango, tinham que me aturar porque eu era o dono.

Amorim chegou a arriscar no futebol, mas não levava muito jeito. Preferia a noite, na qual poderia cair na área sem fazer pênalti. “Eu tinha que aproveitar, né? Era amigo só de gente bonita, como o Capitão, o Picolé. Eu era feio pacas, esmirradinho e ainda pobre. O que eles dispensavam deixavam pra mim, e eu aceitava. Para freqüentar a Praia da Saudade era preciso ter automóvel, pois de ônibus era uma viagem. Era uma época em que as famílias faziam piquenique na gruta da Trindade. Então a escolha da rapaziada era a praia do Müller, na avenida Beira-mar”.

Ressalta que a sacanagem sempre existiu, o conteúdo era o mesmo. E tornava-se mais excitante porque tudo era proibido, nada liberado como nos dias de hoje. Como não existiam motéis, a alternativa mais comum era o fusca. As festas com a mulherada ficavam concentradas na Vila Palmira, onde existiam “casas decentes”, como a Boate O. K., a casa da Coelha e a Casa do Idalino.

“O maior motel da cidade era o estacionamento do Tritão. A gente tinha que se virar no fusca. Hoje existe fartura de mulher e locais não faltam. Veja bem, eu tenho um amigo por semana”. Amorim Concorda que não está com essa bola toda, atinge essa performance em seis meses e comemora.

Antigamente namorar era ter paciência, ensina Amorim. “Tinha que adquirir estabilidade, sair três meses com a moça para alcançar o trato esperado. Mesmo quando surgiu o Meiembipe, havia um resquício de vergonha, ficar na fila esperando a vez era angustiante para elas. Hoje não, fila de motel é como fila de supermercado, uma para comprar, outra para comer”.

O presidente do “Clube do Galfo” continua fazendo o que mais gosta: beber, comer e cantar. Com o vilão na mão, cantando, torna-se romântico, mas também não dispensa a clausura de seu apartamento.

Um sujeito certinho com suas manias. Promove a sua coleção de chás destinados a todos os sintomas, inclusive o glorioso “Guarani”, capaz de provocar imediato desequilíbrio intestinal, após uma noitada debruçado num suculento churrasco.

Não esconde sua preocupação com o futuro das mulheres, nessa pretensa busca de conquistar seu especo. Com a postura de machão, relata que “nesta busca pela liberdade, a mulher acaba desprezando alguns valores, acaba se depreciando diante de uma sociedade machista. Elas perdem vantagens, seria muito mais cômodo continuarem dependência: não existia igualdade nem para pagar as despesas. Quer dizer, ela prega a igualdade, mas continua ficando por baixo”, exagera o lobo da noite, ao concluir: “Acho que a mulher perdeu mais do que ganhou”.

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