Media Lab supera a ficção

Publicado em: 30/11/2010

Ethevaldo Siqueira

O Media Lab está completando 25 anos. Sua contribuição nesse período não se limitou a antecipar o futuro das comunicações, mas a construí-lo. Relembremos apenas alguns projetos e conceitos nascidos nesse laboratório: o programa internacional One Laptop per Child (OLPC), que visa a oferecer um computador para cada aluno; Guitar Hero, Lego e Mindstorms, jogos eletrônicos e sistemas robóticos educacionais; ou ainda tinta eletrônica (e-ink), também conhecida como papel eletrônico, que é uma tela na qual se pode escrever e apagar um texto milhares de vezes, com a aparência idêntica a de impressões sobre papel.

Concebido em 1980 pelos professores Nicholas Negroponte e Jerome Wiesner, o Media Lab – cujo nome completo é Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) – começou a funcionar em 1985. Em seus primeiros dez anos, o laboratório provou ser a vanguarda mundial da revolução digital, contribuindo com inovações que cobriram desde a compreensão mais profunda do processo de aprendizagem à música eletrônica ou à holografia.

Na segunda década, o Media Lab desenvolveu conceitos ousados como o das máquinas do bom-senso, novas formas de expressão artística, abordagens inovadoras que buscam explicar como as crianças aprendem, concepções abrangentes como a das comunicações virais – aquelas que se difundem como vírus, a serviço de cada cidadão, embutidas em seu mundo, na internet, no e-mail, no celular, na música MP3, nas redes sem fio de banda larga e em todos os tipos de convergência digital – ou, ainda, o uso eficaz das ferramentas tecnológicas na sociedade da informação na economia ou no governo eletrônico.

Adaptabilidade

Segundo seu diretor geral, Frank Moss, o foco principal do Media Lab é a “adaptabilidade humana”, conceito que abrange desde as iniciativas para tratar vítimas do mal de Alzheimer e de depressão até robôs sociáveis, que podem monitorar a saúde de crianças e idosos, ou até o desenvolvimento das chamadas próteses inteligentes, que podem imitar ou mesmo exceder o desempenho dos membros ou brônquios biológicos ou naturais.

Num mundo onde os avanços da tecnologia são vistos como naturais, os pesquisadores do MediaLab desenvolvem tecnologias para que as pessoas possam criar um futuro melhor.

Impressões

Tenho acompanhado com algumas visitas periódicas o trabalho do Media Lab desde o fim dos anos 1980. Lá estive sempre em outonos frios, típicos da Nova Inglaterra, em que tapetes de folhas vermelhas e alaranjadas cobrem os estreitos caminhos que circundam os edifícios da velha e famosa universidade.

O Media Lab, diferentemente do que se poderia imaginar, não está preocupado em criar novas tecnologias nem em desenvolver novos produtos mas, sim, em repensar seus usos, estudar seu impacto, propor correções, discutir questões como segurança, aspectos culturais e todas as formas possíveis de inclusão social e cooperação internacional, em favor da difusão do conhecimento.

Além de promover o estudo de novas tecnologias da informação e da comunicação, o Media Lab tornou-se um laboratório de idéias, comprometido em reavaliar criticamente a aprendizagem e a escola, o uso de equipamentos e de recursos de informática, as telecomunicações, a eletrônica de entretenimento e a convergência digital. Até a evolução das cidades e os desafios do carro do futuro têm sido seus temas de discussão.

O programa de pesquisas do Media Lab cobre não apenas temas diretamente ligados à educação, como a aprendizagem de línguas via internet e as redes cooperativas mundiais para democratização da informação, mas também o lazer na era digital ou os brinquedos de amanhã, a inclusão digital em São Paulo, na África ou nas camadas mais pobres da América Latina ou dos Estados Unidos.

Independente

O professor Nicholas Negroponte, um dos fundadores dessa instituição única, dedica-se hoje exclusivamente ao projeto OLPC. “O Media Lab”, diz ele, “foi criado como um departamento independente dentro do MIT, para que o laboratório pudesse tomar suas próprias decisões e escolher seus alunos de pós-graduação. Essa escolha é muito importante, pois a maioria dos departamentos aceita estudantes de pós-graduação com base em suas perspectivas de sucesso acadêmico. O Media Lab prefere selecionar aqueles que mais poderão ajudar a instituição em seus projetos em curso.”

Diferentemente de outros departamentos acadêmicos do MIT, o Media Lab é inteiramente patrocinado ou financiado pela indústria. Por serem patrocinadoras, as empresas têm o direito à propriedade intelectual que possa advir do trabalho do Media Lab.

Fundado com base na convicção de que a tecnologia digital ultrapassa os limites da mídia tradicional, como a arte e a arquitetura, o Media Lab tem produzido avanços surpreendentes – muito além do que supomos ser mídia – como como as redes Mesh, que se baseiam na interligação de células como as da telefonia móvel.

Nenhum documento talvez possa exemplificar melhor o trabalho do Media Lab do que o vídeo que descreve o projeto Sexto Sentido, com a pesquisadora Pattie Maes, do MIT (no site TED.com, que você pode ver pelo link http://www.ted.com/talks/lang/por_br/pattie_maes_demos_the_sixth_sense.htm

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