Memórias do rádio – Respondendo a Odirley Prada – 2

Publicado em: 30/03/2009

Como aqui a lei é falar em capítulos, relembro que terminei o primeiro, semana passada, perguntando: “Cê ta lendo ainda?” E agora retomo a guisa de recomeço. Faz de conta, dizia eu. Continuo só pra dizer que o sonho continuava em ser locutor famoso.

Fui para Presidente Prudente. Teste numa Emissora famosa de lá: Paiquerê. 1955 ou 56. Não me lembro. Tinha amigos lá, oriundos de Paraguaçu: Lizâneas Rodrigues me deu cama e comida por dois dias. Fiz o teste. Passei. Mas o homem disse que minha voz era para a Rádio Nacional, porque era outro padrão.

Tinha disso na época: cada Emissora tinha PADRÃO. O raio do padrão. Ao invés da Nacional, fui para Paranavaí. Rádio do velho Lauro/careca. Grande cara! Ele fazia a técnica – aquele que ficava no outro lado do vidro da cabine colocando os discos. Hoje o locutor é quem se vira e faz tudo sozinho!

Um dia, apresentando músicas depois de uma ou duas horas, notei que a música que o seu Lauro careca colocava não batia com as que eu estava anunciando. Fui conferir: a programação dele era diferente da minha. Eu anunciava Carlos Galhardo e ele colocava Dircinha Batista, ou a Hebe Camargo cantando com a Adelaide Chiozzo que tocava sanfona.
Ninguém reclamou. Nenhum ouvinte. Acho que não tinha ninguém ouvindo.

Fiquei sendo o queridinho sabido da turma, por um fato: alguém apresentava um programa de auditório e a mocinha começou a cantar. Notei que pegou um tom muito alto e iria se arrebentar na segunda parte. Os músicos preocupados. Interrompi  dizendo que tinha uma importante notícia a dar. Eles de recuperaram, a moça começou direitinho no tom e ganhou o concurso. Virei herói perante os músicos. Vai ter rabo assim num sei onde, siô!

Agora, acho que posso resumir: de Paranavaí para Astorga. Não tinha asfalto. Chuva. Fomos de caminhão. O que hoje não demora horas demorou quase uma semana no atoleiro daquela terra roxa. Nem vermelha era. Era rocha. Era cola. Os caminhões – centenas atolados – usavam correntes nos pneus prá poder tentar passar. Depois eram rebocados.

De Astorga, para Santa Mariana. Conheci um cara chamado Paulo. Jogador inveterado de cartas que tinha uma dica importante: era só convencer o prefeito de Santa Mariana a dar a verba e se colocava lá uma Emissora de Rádio e eu ia ser dono e diretor.
Lá fui eu. Ele falou com o prefeito. Convenceu. Ficamos no Grande Hotel do seu Lauro. Saiu a publicação da formação da sociedade no Diário Oficial. Eu, no meio! Ia ser DONO DE RÁDIO!

Ele, o Paulo, foi com o dinheiro para o Rio de Janeiro. Eu fiquei no Hotel UM ANO. Nesse ínterim, claro, lia a Ave Maria no Alto Falante do Bacarim. Ali conheci uma fã de carterinha que, mais tarde, seria minha mulher e que me daria três filhas maravilhosas. Hoje a soma chega a oito filhos, 13 netos, um bisneto. Não só dela, lógico!

Um ano sem pagar o Hotel. Fui trabalhar na Prefeitura. Fiscalização. Um filho da puta me deu um canivete. Eu aceitei. Fui mandado embora da Prefeitura porque fiscal não podia receber presentes. O Prefeito, no entanto, fez uma carta para o Ronald Stresser, dono da Rádio Colombo de Curitiba. Fui prá lá. Paguei o Hotel muitos anos depois. Mas paguei. O tal de Paulo nunca mais voltou. Deve ter perdido o dinheiro todo numa mesa de jogo ou morreu com a boca cheia de formiga.

1 responder
  1. DONATO RAMOS says:

    Antes que alguém veja, o meu dicionário pifou: coloca lá no texto ROXO no lugar de rocha. Podia até dizer que era rocha derretida aquele barro da estrada, mas todos vão dizer que burrice não se conserta com papo. [email protected]

    Redação: a mensagem do colunista foi editada por conter texto fora dos princípios do site.

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