Meninos de avião

Publicado em: 24/05/2005

É hora de arrumar os meninos, lembra o marido. Pegando o ônibus das dez e meia, chegam às onze na casa do Joaça, uma hora boa. Não fica nada bem aparecerem por lá quando já estão botando o almoço na mesa, fica? Não vão lá só para comer, vão? Te apressa, mulher!
Por Flávio José Cardozo

Ela vai à janela e grita para o quintal: Marcos! Lucas! Jacó! De fato, ai meu Deus, já está meio tarde para arrumar os três. É sempre bem-vindo um convite como esse que o colega de serviço do marido fez, é bom poder distrair um pouco a cabeça fora de casa, mas só ela sabe a trabalheira que dá para sair tendo três filhos pequenos. Grita de novo: Marcos! Lucas! Jacó! Ninguém aparece. Está claro que eles não querem nem saber de deixar o brinquedo. Ela pede ao marido que vá buscá-los.

Pronto, cá estão os três porquinhos: seis, cinco, quatro anos. Pegaram um resto de carvão que havia por aí e quase não se sabe mais quem é quem, só o tamanho os identifica. A mãe bota as mãos na cabeça, ai meu Deus, quantas águas não vou ter de passar nestes bichos! Leva-os para o banheiro, clamando por Deus mais algumas vezes.

Lucas pergunta a razão daquele banho assim fora da rotina. A mãe explica que vão passear na casa de um amigo do pai, o Seu Joaça, e precisam chegar lá limpinhos, não precisam? Vocês têm carvão por tudo, onde é que não botaram carvão, onde?

Lavados e enxutos, começam a ser vestidos. Não é uma operação das mais simples, normalmente já não é simples, imagine agora assim com pressa e na sujeira em que eles se encontram, mas a mulher vai superando também com galhardia essa etapa. Pronto, pronto, Deus é grande, estão voltando a ser gente.

É quando Marcos quer saber como eles vão, é de ônibus? Não, é de avião, responde a mãe, ainda achando jeito de fazer alguma graça, mas muito agoniada com o cabelo dele, um cabelo ruim que não se acerta, e com o vertiginoso passar do tempo. Ela precisa também se aprontar, faltam apenas dez minutos para as dez e meia.

Pobre mulher: por que foi dizer que iam de avião? Olha só que problema foi arranjar: Jacozinho, o menor, aponta o dedo para ela, todo categórico, e diz que de avião não quer ir – não quer, não quer, e cai no berreiro. Cala a boca, seu bobo! – mas Jacozinho nem escuta.
O pai vem ver que choro apavorado é aquele. A mulher conta que falou que eles vão no Joaça de avião e esse aí está dizendo que de avião não quer ir, tem medo. Pode? Eu não tenho medo, diz Marcos. Eu também não tenho, diz Lucas. Mas eu tenho, eu tenho, berra ainda mais alto Jacó.

A mulher vai se preparar, deixa os três a cargo do marido, ele que se vire um pouco também e administre a gritaria. Mas Jacó não pára, desembestou, chora ainda mais descontrolado. Tem mesmo um grande pavor de avião esse cagãozinho. Ninguém sabia disso. Ou será que a mãe sabia e, irritada como estava, falou essa bobagem só para assustá-lo? Não, ela não ia fazer isso, ora se ela ia ser assim maldosa, foi só uma brincadeira. Não chora, meu filho, ninguém vai de avião, foi bobiça da mãe, pára com isso, pára, porqueira!

Arrumam-se, enfim, e saem para o ponto do ônibus, Jacó chorando no maior desespero. Não quero ir de avião, não quero! Escandaloso, aquilo chama a atenção dos que passam e, quanto mais gente olha, mais ele berra. Só quando o ônibus encosta e o pai diz que subam é que ele acredita que não vão mesmo de avião.

Mas aí… aí é demais: no ônibus é aquela zoeira, é a vez de Marcos e Lucas desandarem no choro, pois eles querem ir de avião, a mãe disse que a gente ia de avião, a mãe disse!

(Do livro Trololó para flauta e cavaquinho [em parceria com Silveira de Souza], Florianópolis, Garapuvu, 1999)


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