Meninos de quartel

Publicado em: 03/01/2012

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

Prestei serviço militar nos anos de 1958 e 1959. Embora Escoteiro eu queria passar pela formação militar. Estava, ‘Recruta Tavares’ quando fui despertado para algo estranho: crianças entre onze e treze anos – sabidos depois – estavam ali semi ocultos entre as paredes do Rancho dos Praças (restaurante de soldado) esperando alguma coisa, ansiosas e medrosamente. Como soldado do Pelotão de Comunicações da Companhia de Comando e Serviços, resolvi tirar à limpo aquelas presenças indevidas em um quartel militar. Dado o toque de ‘volta ao rancho’ que determinava o prazo da refeição, eis que a comida – restolho da bandeja dos soldados que era jogado no lixo -, servia aos meninos do Morro do Caixa, nos fundos do 14 BC, à época.
E a sobra limpa que ficava nas panelas, e portanto, boa para alimentação humana, era levada para a pocilga do batalhão para alimentar os porcos. Comentei com o Secretário da CCS, que conversou com o primeiro tenente, seu comandante para, inclusive, falar com o coronel comandante que essa situação era um verdadeiro deboche. Autorizado por meu superior, fui – dentro da hierarquia militar, sóbria e calmamente -,conversar com o coronel comandante.
Respeitoso, não esperava a ironia e a resposta da autoridade: “São teus filhos? São teus irmãos ou essas coisas que chamas de crianças, são resultados de tuas aventuras amorosas com as vivandeiras suas mães? Ou és um comunistazinho querendo salvar o mundo proletário? Serves a quem? À Pátria ou à ralé faminta?
Naquele momento a minha decisão foi tomada: meu corpo estaria no Exército pelo tempo que faltava para baixa (tempo de serviço obrigatório), porém, jamais dirigiria a palavra aquele indivíduo. Uma ordem ríspida interrompeu meus sentimentos: “Solda, quero tua resposta!”
Em rígida posição de sentido dei-lhe a resposta: “Invoco o meu direito de ficar em silêncio e de voltar ao meu posto na companhia. Queira dar o assunto por encerrado”.
Descendo as escadas ainda ouvia seus gritos histéricos determinando que parasse e voltasse à sua presença. O  Corpo da Guarda foi alertado, mas ninguém me deteve.
Apresentei-me ao Tenente Comandante da Cia e disse-lhe: “A partir deste momento considero-me desligado do Curso de Formação de Graduados e do Projeto Agulhas Negras. Vou recolher aqueles meninos e fazê-los integrantes do Grupo de Escoteiros do Mar”.
Naquele Natal de 1959 fui brindado com a presença de duas novas patrulhas: a dos meninos do quartel e a dos meninos pescadores do Saco Grande.

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